segunda-feira, 23 de agosto de 2010

INTUIÇÃO NA VIDA MODERNA - Bergson

 Bergson jovem

Bergson e a intuição

Bergson via a intuição como o principal caminho para o conhecimento, que vem através de percepções primárias, imediatas, de acordo com nossas experiências.

Para ele, chegaria um dia onde desenvolveríamos a intuição como importante aliada e amplamente executada, aplicando-a em nossas posturas e reações.

Foi um dos precursores do inconsciente.

Acreditava que a razão não poderia ser inimiga da intuição. Caminhando juntas, são como ciência e filosofia, uma, o conhecimento do absoluto, outra a relatividade do conhecimento.

Para chegarmos ao conhecimento, em primeira estância, intuímos, posteriormente refletimos e a razão chega como conseqüência última, através das explicações lógicas.

Todos temos momentos onde não explicamos porque pensamos de determinada forma ou intuímos que certa prática deveria ser adotada.

Assim, a intuição nasce por uma série de fatores em nossos históricos experimentais e a conseqüência disso é ligarmos determinadas percepções a tais sensações, através da razão.

Sendo assim, a intuição pode ser julgada como uma forma de conhecimento?

Quando a razão não é suficiente e os limites do conhecido impedem de ir além?

Muitos sucessos empresariais surgem através da intuição, que motiva a insistência e, por conseqüência, permite o ir além, ainda que a racionalidade seja um fator limitante.

Inúmeros casos são observados no mundo corporativo. Além dos fracassos provocados pela néscia insistência dos despreparados, vemos situações onde um posicionamento, contrário ao de muitos é mantido e, contra tudo e todos, a postura é executada, correndo um grande risco.

Por quê alguém arrisca o sucesso na insistência de uma crença subjetiva originada de uma sensação?

O que é a intuição e como se forma?

Tem, como matéria prima, conceitos metafísicos ou são experimentos vividos, armazenados e em determinado momento, lembrados?

A minha postura seria a de minimizar sempre as intuições em uma empresa.

Um empreendimento e todas as práticas envolvidas não devem ser baseados em reações sensitivas, crenças de “eu sinto”, “eu acho”. Acredito que determinados caminhos podem e devem ser pautados em uma razão com fatos e experimentos racionais, mas note que eu apenas “minimizo” a intuição e não a elimino.

Em determinados momentos, a razão não será suficiente e nos deixará sem a resposta que necessitamos para determinadas atitudes, nessa situação, a intuição pode ser uma grande aliada.

Há ainda, situações, onde a intuição vai além da razão, principalmente nos casos de lançamentos de novos produtos e determinados serviços.

No mundo da tecnologia vemos a Apple de Steve Jobs como grandes aliados da intuição em todos os seus lançamentos inovadores e práticas originais.

Tudo, embasado com evidências matemáticas, sem esquecermos que a intuição pode ser um tempero a mais, um diferencial em determinadas ações ou o impulso vital para que determinada idéia seja colocada em prática.

A vida moderna, o contexto cultural, social e racional, nos afastam da intuição, por medos da falha.

Naturalmente, se você executou determinado projeto que fracassou, mas sua base teve sólidos conceitos experimentais e referências concretas, sofrerá menos riscos que se falhar, baseado em sua intuição.

Mas não se esqueça que grandes descobertas e práticas só podem ser viabilizadas com o uso da intuição.

Saiba ser racional no apoio do intuitivo.

Permita-se intuir, racionalmente.

Doses variáveis de cada uma dessas práticas serão necessárias de caso a caso, sabendo quando ser mais, menos, onde insistir ou passar adiante.

Experimentamos, conhecemos, armazenamos e na totalidade somatória de nossa vivência, intuiremos. Saiba, nesse momento, racionalizar se tal intuição tem fundamento lógico e deve ser levada em consideração ou é apenas fruto de seus desejos emocionais, anseios projetivos e percepções irracionais.
 
Fonte:
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/bergson-e-a-intuicao/29593/
Sejam felizes todos os seres. 
Vivam em paz todos os seres. 
Sejam abençoados todos os seres.

PEDAGOGIA DA INTUIÇÃO - em Bergson


BERGSON         
-Dimensão Ética da Intuição

  • Resumo: Este trabalho tem como objetivo fundamental pesquisar como Henri Bergson constrói sua concepção de intuição como método filosófico e apontar alguns desdobramentos dessa concepção nas suas reflexões de ordem ética e pedagógica. Nossa análise parte da constatação de que, para Bergson, a intuição deve ser tomada como o meio de conhecimento primordial da realidade, uma vez que só ela pode realmente apreender seu movimento concreto de duração.
  •  
  • Num aprofundamento dessa reflexão bergsoniana, a intuição converte-se, inclusive, no próprio método que possibilita à filosofia desenvolver um pensamento capaz de refletir verdadeiramente o real e sua temporalidade inerente, e, além disso, posicionar-se de forma crítica diante de uma tradição que consolida uma análise excessivamente racional e distante da realidade, geradora de uma série de falsos problemas e de falsas soluções.
  •  
  • Nossa pesquisa procura acompanhar o itinerário criativo de Bergson, do Essai sur les donnés immédiates de la conscience a Les Deux Sources de la Morale et de la Religion, para justamente determinar como essa concepção de intuição vai se desdobrando ao longo de sua obra. Tal pesquisa acaba chegando à conclusão de que além de um método de conhecimento filosófico rigoroso, a intuição pode converter-se no princípio de uma ação transformadora capaz de promover a elevação moral do homem e, assim, não só ampliar o seu campo de especulação como também lhe dar "mais força para agir e para viver".
  •  
  • Neste sentido, conforme defende Bergson, a intuição dever ser cultivada, até pedagogicamente, como um complemento fundamental à inteligência ou razão, imprescindível até mesmo para lhe apontar os limites. (AU)
Fonte: Projeto FAPESP:
  • A dimensão ética e pedagógica da intuição em Bergson
  • Beneficiário:
  • Tarcísio Jorge Santos Pinto
  • Processo: 00/14363-8
  • Linha de fomento: Bolsas - no Brasil
Sejam felizes todos os seres. 
Vivam em paz todos os seres.
Sejam abençoados todos os seres.

BERGSON E A INTUIÇÃO


BERGSON - A INTUIÇÃO



Bergson via a intuição como o principal caminho para o conhecimento, que vem através de percepções primárias, imediatas, de acordo com nossas experiências.
Para ele, chegaria um dia onde desenvolveríamos a intuição como importante aliada e amplamente executada, aplicando-a em nossas posturas e reações.

Bergson é um dos precursores do inconsciente.

Acreditava que a razão não poderia ser inimiga da intuição. Caminhando juntas, são como ciência e filosofia, uma, o conhecimento do absoluto, outra a relatividade do conhecimento.

Para chegarmos ao conhecimento, em primeira estância, intuímos, posteriormente refletimos e a razão chega como conseqüência última, através das explicações lógicas.
Todos temos momentos onde não explicamos porque pensamos de determinada forma ou intuímos que certa prática deveria ser adotada.

Assim, a intuição nasce por uma série de fatores em nossos históricos experimentais e a conseqüência disso é ligarmos determinadas percepções a tais sensações, através da razão.

Sendo assim, a intuição pode ser julgada como uma forma de conhecimento?

Quando a razão não é suficiente e os limites do conhecido impedem de ir além?

Muitos sucessos empresariais surgem através da intuição, que motiva a insistência e, por conseqüência, permite o ir além, ainda que a racionalidade seja um fator limitante.
Inúmeros casos são observados no mundo corporativo. Além dos fracassos provocados pela néscia insistência dos despreparados, vemos situações onde um posicionamento, contrário ao de muitos é mantido e, contra tudo e todos, a postura é executada, correndo um grande risco.

Por quê alguém arrisca o sucesso na insistência de uma crença subjetiva originada de uma sensação? 

O que é a intuição e como se forma?
Tem, como matéria prima, conceitos metafísicos ou são experimentos vividos, armazenados e em determinado momento, lembrados?
A minha postura seria a de minimizar sempre as intuições em uma empresa.

Um empreendimento e todas as práticas envolvidas não devem ser baseados em reações sensitivas, crenças de “eu sinto”, “eu acho”. Acredito que determinados caminhos podem e devem ser pautados em uma razão com fatos e experimentos racionais, mas note que eu apenas “minimizo” a intuição e não a elimino.

Em determinados momentos, a razão não será suficiente e nos deixará sem a resposta que necessitamos para determinadas atitudes, nessa situação, a intuição pode ser uma grande aliada.

Há ainda, situações, onde a intuição vai além da razão, principalmente nos casos de lançamentos de novos produtos e determinados serviços.

No mundo da tecnologia vemos a Apple de Steve Jobs como grandes aliados da intuição em todos os seus lançamentos inovadores e práticas originais.

Tudo, embasado com evidências matemáticas, sem esquecermos que a intuição pode ser um tempero a mais, um diferencial em determinadas ações ou o impulso vital para que determinada idéia seja colocada em prática.
A vida moderna, o contexto cultural, social e racional, nos afastam da intuição, por medos da falha.

Naturalmente, se você executou determinado projeto que fracassou, mas sua base teve sólidos conceitos experimentais e referências concretas, sofrerá menos riscos que se falhar, baseado em sua intuição.

Mas não se esqueça que grandes descobertas e práticas só podem ser viabilizadas com o uso da intuição.
Saiba ser racional no apoio do intuitivo.

Permita-se intuir, racionalmente.
Doses variáveis de cada uma dessas práticas serão necessárias de caso a caso, sabendo quando ser mais, menos, onde insistir ou passar adiante.

Experimentamos, conhecemos, armazenamos e na totalidade somatória de nossa vivência, intuiremos. Saiba, nesse momento, racionalizar se tal intuição tem fundamento lógico e deve ser levada em consideração ou é apenas fruto de seus desejos emocionais, anseios projetivos e percepções irracionais.


Fonte:
http://reflexoescorporativas.wordpress.com/2009/04/14/bergson-e-a-intuicao/
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A INTUIÇÃO - BERGSON - Ponto de Partida -Miguel Reale


BERGSON,  PONTO DE PARTIDA

MIGUEL REALE



         O maior filósofo francês do século passado (1859-1940) anda esquecido, apesar de lhe devermos a restituição da liberdade ao mundo da experiência e o papel da intuição no plano do conhecimento. É um pensador de formação inicial evolucionista, por ele superada definitivamente no sentido de uma metafísica concebida sobre novas bases, que procurou estabelecer em fecundo contato com as pesquisas científicas. Vejamos em que sentido surge a metafísica bergsoniana, pondo em equação, preliminarmente, o problema do método.

         O pensamento de Bergson, que, sob vários aspectos, assinala o superamento do naturalismo do século XIX, baseia-se numa distinção fundamental entre inteligência e intuição, distinção que sob denominações diversas encontramos em outros sistemas, tão penetrante foi a influência do mestre gaulês. A seu ver, o homem seria senhor de dois modos ou instrumentos fundamentais de conhecer, que seriam de natureza intelectiva um, e de ordem intuitiva o outro. São dois processos que se completam, cada qual dotado de certa qualidade ou de valor próprio. A inteligência é o grande instrumento da ciência, a poderosa alavanca mediante a qual o homem se torna senhor da realidade, subordinando-a a seus fins vitais.

           O homem, colocado em face da realidade, procura dominá-la. Domina-a partindo-a, dividindo-a, seccionando-a. O meio de que o homem se serve para o domínio da natureza é a inteligência, que opera por meio de quantificação ou de espacialização. O conhecimento da ciência é quase que conhecimento quantificado, numérico. Bergson, no fundo, aceita a tese de Augusto Comte de que o ideal das ciências é a matemática. Uma ciência é tanto mais exata quanto mais se avizinha do ideal das matemáticas, abrangendo o real em fórmulas e equações. O conhecimento do físico, do químico ou do astrônomo atinge perfeição extraordinária, porque é suscetível de expressar-se numericamente, em súmulas quantitativas, que partem o movimento e o representam como algo abstrato, cindindo o real em uma sucessão de visões fragmentárias, cuja redução infinitesimal se harmoniza com as exigências do “cálculo”, essencial ao saber positivo. O homem quantifica, em suma, a natureza, para dominá-la, constituindo um sistema convencional de índices quantitativos.

            O tempo, por exemplo, que dividimos em minutos e horas, anos e séculos, em si mesmo não possui essas divisões. Somos nós que as  inventamos, para adaptá-lo à nossa existência. O homem modela o mundo segundo sua imagem, fragmentando o real graças à inteligência. Esta, que é uma faculdade de fabricar instrumentos destinados a fazer outros instrumentos (des outils à faire des outils) não pode representar a realidade tal como essencialmente é.        Observa Bergson, que esse conhecimento fica, de certa maneira, na superfície das coisas. É um  conhecimento instrumental, que tem significado e sentido tão-somente porque satisfaz a fins de ordem  prática.       

           Sentimos, no entanto,  a necessidade  de achegarmo-nos ao ser, sem o intermédio dessas fórmulas numéricas fragmentárias e quantitativas; de entrar em contato direto e imediato com o “real”, o não suscetível de ser partido e quantificado. O real, diz Bergson, é fluido,  contínuo e inteiriço. Somos nós que o partimos e fragmentamos. A realidade é “duração pura” sem hiatos e intermitências. Como será possível ao homem atingir aquilo que é em si uno e concreto, todo e contínuo, autêntico, não deturpado? O instrumento de penetração do homem no mundo da durée pure seria a intuição.

         A intuição é o processo próprio do filósofo ou do homem enquanto filosofa. A intuição é um modo de conhecer que tem algo do instinto e da emoção, ou, como diz Bergson, é “uma espécie de simpatia espiritual”. O conhecimento intuitivo opera-se diretamente, como uma sondagem no real para coincidir com aquilo que ele tem de concreto, de único, e, por conseguinte, de inefável. Pense-se na atitude espiritual diante dos problemas estéticos, do senso artístico. Compreensão estética não é quantificação numérica, mas é, ao contrário, uma identificação com o próprio objeto contemplado, de maneira que a poesia seria uma forma fundamental, inicial, de compreensão do ser.

         Há algo de imaginoso nos conceitos bergsonianos de intuição, de “impulso vital” (élan vital), duração pura (durée pure), etc. Aliás, Bergson deve, em grande parte, o sucesso e a grande repercussão de sua doutrina à sua poderosa capacidade expressional. Não conheço filósofo moderno que tenha sido capaz de escrever filosofia com tanta beleza e riqueza de imagens como Bergson e Nietzsche, os dois pensadores que elevaram a filosofia a uma expressão estética fundamental, reconduzindo-a à beleza reveladora do modelo platônico.

         Bergson dá-nos um exemplo ou uma imagem interessante para distinguir-se inteligência de intuição. Analisemos o conhecimento de uma cidade. Podemos conhecer Rio de Janeiro ou Paris por meio de plantas, guias, fotografias. Obtemos fotografias precisas dos quarteirões, das principais praças e monumentos, lemos guias, decoramos nomes de ruas, estudamos a situação das igrejas, dos museus e dos teatros. Eis um conhecimento típico da inteligência, pela contemplação de fragmentos, pela composição daquilo que previamente se dividiu e se separou. Este é um conhecimento puramente intelectual. Comparemo-lo, no entanto, com o conquistado por quem vai morar na cidade, põe-se em contato com suas ruas, com suas casas, com sua gente, não fica na visão fragmentária do todo, mas se insere naquilo que é insuscetível de divisão e de fragmentação. Quem vive assim na cidade penetra no coração da realidade urbana. É um conhecimento por dentro, não por fora apenas, um intus ire, um ir dentro da coisa, para surpreendê-la no que ela possui no íntimo, ou seja, na sua natureza genuína. A intuição, portanto, é uma via de acesso direta ao real de maneira que o homem se identifique com o real concreto, com a “duração pura”.

         Outra contribuição decisiva de Bergson  consistiu em ter restituído a liberdade à experiência existencial, ultrapassando a posição de Emmanuel Kant, para quem a liberdade seria uma conseqüência do dever, do imperativo categórico, segundo a fórmula: “tu deves, logo podes”. Para Bergson, ao contrário, a liberdade, como autodeterminação, é a condição mesma da existência. Pelos motivos expostos, Bergson pode ser considerado o ponto de partida tanto do intuicionismo fenomenológico de Husserl, como do existencialismo de Heidegger.

13/09/2003


Fonte:
http://www.miguelreale.com.br/artigos/bergson.htm
Sejam felizes todos os seres. 
Vivam em paz todos os seres.
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O SER E O NADA - em Bergson




Bergsonismo,
 ou o ser e o nada na história da filosofia. 
 
- Criação, de creare: etimologicamente, "retirar do nada"... etimologia dúbia, porém; um filósofo transcendente mostrará na obra de um artista, no objeto criado, como que retirado do nada, em um universal golpe de magia teísta, a precedência do vazio sobre o ser (logicamente, "antes era o nada, depois veio o ser."); 
 
um filósofo da imanência, entretanto, dirá, com um sorriso demoníaco nos lábios: “Mas não é precisamente essa a tarefa da filosofia: criar, ‘retirar do nada’? Não é tarefa da filosofa mostrar que o nada, que nos representamos, já é mais que o ser?”. 
 
 O nada supõe a sua representação consciente como o todo do ser mais a sua total supressão; isso não é o mesmo que dizer o todo, porém na presença da própria ausência representada a uma consciência? 
 
Por isso, Bergson dizia: “o nada não passa de um falso problema”. 
 
O nada é a representação sempre relativa a uma consciência que não se interessa senão pela presença de um objeto determinado que, no entanto, está ausente.


Sejam felizes todos os seres. 
Vivam em paz todos os seres.
Sejam abençoados todos os seres.

domingo, 22 de agosto de 2010

CAMPO TRANSCENDENTAL - BERGSON



Bergson põe em xeque a metafísica tradicional. Ele a reconduz à terra, ao tempo liberado de referenciais espaciais,  e à vida; e tudo começa pela intuição. Por isso, Introdução à metafísica afigura-se um texto crucial na bibliografia bersgoniana. Em Bergson, ser metafísico não tem nada com a transcendência, mas, antes, com a constituição de um campo imanente de experiência, ou com a consciência constituída como um campo transcendental, que é a experiência que desenha as condições da imanência.

Assim, a intuição vira método que põe em questão nossas formas decantadas e transcendentes de conhecer os objetos. É na experiência imanente que dá suporte à intuição que Bergson realiza mais que uma viragem, uma verdadeira ruptura na história da filosofia. Em Bergson, o pensamento dura, e a metafísica não poderia ficar intocada, nem sequer continuar a mesma...
* * *
Como se conhece uma coisa? Os metafísicos tendem a dizer que há duas formas: primeiro, o conhecimento que consiste em dar voltas ao redor da coisa; conhecimento de perspectiva, e que depende diretamente dos símbolos por que se expressa. Segundo, o conhecimento que entra na coisa, que não conhece por perspectiva e não se apóia na sua expressão. Quanto ao primeiro modo de conhecer, chamamo-lo relativo; ao segundo, absoluto .

Primeiro, um conhecimento do exterior do objeto, capaz de descrever seu movimento segundo a sucessão de suas posições no eixo tempo-espaço. Segundo, um movimento absoluto será aquele que experencio imaginativamente por atribuir ao objeto um interior e como que estados de alma; “também porque me simpatizo com os estados e neles me insiro por um esforço de imaginação”.
Experimento o objeto, faço de seu movimento minha experiência dele, nele – assim, diz Bergson, apreenderei um absoluto.
Num romance, por mais intenso que seja, só o experencio verdadeiramente ao preço de fazer-me, num ponto singular, coincidir com a personagem. Símbolos, pontos de vista, me colocam de fora dela; não entregam a mim aquilo que é próprio a ela .
 
O que é próprio dela não poderia ser visto de fora – é uma dobra interior, inexprimível, de que só posso ter experiência ao preço de coincidir com ela, sem que o símbolo que dela faço, sem que sua representação a meus olhos de alhures possam dizer ou ver sua singularidade mais essencial. É por isso que Bergson diz que aí há uma perfeição, na medida em que a coisa é perfeitamente aquilo que ela é, e também infinita, pois se dá em uma apreensão indivisível e segundo uma enumeração inesgotável.
Aqui, Bergson vem cavar seu método para conhecer o absoluto: a intuição. Ao conhecimento relativo, exterior, deixa o saber de análise, que, por ver de-fora, decompõe o movimento, situa-o no espaço e espacializa o tempo. Intuição, ao contrário, será “a simpatia pela qual nos transportamos para o interior de um objeto para coincidir com aquilo que ele tem de único e, por conseguinte, de inexprimível” .
 
Assim, a intuição não multiplicará pontos de vista sobre o objeto, como na análise – no afã de apreender o essencial; ela será um ato simples. Se, portanto, a ciência positiva não pode conhecer senão ao preço de passar pela análise, de simbolizar, de sustentar-se sobre a expressão daquilo que é conhecido – fadado a nunca ser ele mesmo –, Bergson dirá que a metafísica é a ciência que pretende passar-se de símbolos .
 
Contudo, tal experiência interior de um outro ser parece demasiado imaginária, não é? Não para Bergson, para quem a experiência fundamental, propriamente interior, inultrapassável pela análise, é a de nossa própria pessoa – a cujo interior, sem dúvida, somos simpáticos – no escoamento do tempo: nosso eu que dura.
Sobre mim, minha imagem, minhas virtuais lembranças que sobrevivem ao presente e lançam o futuro, sentimentos que vêm com elas e cristalizam-se, percepções que se expandem numa esfera que tende a se alargar e derramar-se no mundo exterior. Se, de outra sorte, me contraio, encontro por baixo desses cristais uma continuidade de escoamento que não se compara com nada exterior. “É uma sucessão de estados, cada um dos quais anuncia aquilo que a ele se segue e contém aquilo que o precede. A bem dizer, só constituem estados múltiplos quando já os ultrapassei e me volto para trás para observar-lhes o rastro”, escreve .
Nenhum desses rastros começa ou acaba – eles se prolongam indefinidamente uns nos outros: prolongamento contínuo de um meio heterogêneo. A memória é aquilo que permite dizer que a consciência é o que é profundamente desigual a si mesma. Só uma consciência sem memória, sem que seu passado estivesse implicado no presente que devém novo, poderia ser idêntica a si mesma em dois momentos diferentes.

Não há imagem possível para dizer isso que Bergson diz: pois é a experiência da consciência a única que autoriza a compreender o que Bergson tenta expressar em palavras. Sem, no entanto, conseguir, a inexpressibilidade dessa consciência não faz senão confirmar sua intuição transformada em método metafísico.
Esse movimento da duração de si não seria como um novelo de lã a enrolar-se sempre, pois exige uma multiplicidade como meio; tampouco seria um espectro de cores, pois sua variação ocupa espaço, justapõe-se – e isso seria recair no kantismo de um tempo espacializado. Não seria um exemplo desejável, na medida em que a duração pura exclui toda idéia de justaposição, exterioridade recíproca e extensão. Ela é multiplicidade virtual e contínua, irredutível ao número, segundo Deleuze (Le Bergsonisme, 1966: 31). Há que divisar a força que repuxa a linha de um ponto, e o traço que essa intensão deixa no espaço na forma de linha, como rastro de sua ação indivisível. O rastro passa por mil pontos, mas a linha é um movimento indivisível . 
 
Enfim, toda imagem será incompleta: “pois o desenrolar de nossa duração se assemelha por certos lados à unidade de um movimento que progride, por outros a uma multiplicidade de estados que se esparramam, e nenhuma metáfora pode restituir um dos aspectos sem sacrificar o outro” . E se essa vida interior, variedades qualitativas, continuidade de progresso e unidade de direção, não pode ser representada por imagens, tampouco conceitos, abstrações, ou universalidades poderão restituir-me a sensação de experimentar minha própria duração, o escoamento de mim mesmo.

Não se trata, como reconhece Bergson, de restituí-lo pela filosofia – mas se trata de não substituir o conceito à própria duração; o que não se pode fazer dizendo ser metafísica é dizer que o ser diz-se num conceito que não passa da expressão de uma perspectiva sua que sequer é interior ao ser conceituado. À expressão que substitui o objeto exprimido, Bergson chama símbolo . A semelhança que baseia a expressão do objeto no símbolo é justamente aquilo que não é capaz de recortar sua essência – o que aproxima o objeto do símbolo é precisamente aquilo em que ele não difere e, portanto, aquilo que ele não é. Não conhecemos as palavras senão por seus sinônimos – daí que elas sejam pura exterioridade, não possuam um interior, uma essência, um ser. Hegel já havia percebido que a linguagem opera uma inclusão-exclusiva do ser na língua, ao nomeá-lo, e Agamben lembra que a palavra representa a coisa, mas não a contém.. O que Agamben diz é que não há um fora na língua; Bergson diria que a língua, porque expressa o ser sem poder sê-lo, não pode ser senão o espaço do fora mais radical do ser.
Não há, aí, apenas uma ilusão, mas também um perigo, que parece consistir no fato de que o conceito não apenas generaliza, mas abstrai a coisa de que constitui representação . Por isso, se a metafísica não for um jogo de conceitos, mas uma ocupação mais séria, deverá transcender os conceitos para chegar à intuição, libertando-se de conceitos prontos para criar conceitos novos, representações tão fluidas e fugidias quanto a própria intuição .
* * *
Que se possa dizer que a duração é multiplicidade não-coincidente com nenhuma outra multiplicidade, e que constitui uma unidade móvel, cambiante, viva, colorida, não basta para afetar a duração da forma como é possível afetá-la pela experiência do eu pelo próprio eu . Pensemos na psicologia. Bergson diz que não há sentimento que não encerre virtualmente o passado e o presente do ser que o experimenta, e que daí possa ser separado para constituir um estado – senão por obra da abstração ou da análise (.E, justamente, esse esforço de abstração e análise constitui precisamente a ciência da psicologia – mas não se pode dizer, contudo, que aí se apreende um sentimento em todas as suas virtualidades, pois elas são inexprimíveis, como a mobilidade da vida interior, seu colorido, sua vivacidade.

Uma cidade se conecta, e só é possível conhecer uma torre separando-a desse todo que ela é por análise: Paris / Torre de Notre-Dame. A experiência de Paris, o mapa de Paris. Pisar Paris e ter a sensação de “ver” Paris no Google Earth. A que, com efeito, pode-se chamar conhecer uma cidade? Ocorre o mesmo com a pessoa de quem o psicólogo extrai um estado psicológico – não passa de um croqui que dará início a uma recomposição artificial daquele sujeito .
 
 Não é possível reconstruir uma coisa por meio de operações exclusivamente simbólicas: é como fazer a montage de um poema que nunca lemos quando alguém nos oferece, recortadas, todas as letras que há no tal poema, diz Bergson (Bergson, 2006: 199). Não há partes componentes, mas expressões parciais, incapazes de reconstruir a coisa que simbolizam.

Roland Barthes já dizia que a lógica do texto é metonímica, e não compreensiva. Bergson parece caminhar lado a lado com Barthes ao afirmar nas entrelinhas que toda imagem, toda metáfora, toda representação e toda linguagem não pode ser senão metonímica. Toda ciência será metonímica, para Bergson, pois apoiada na expressão do ser, e não no ser mesmo. Para Barthes, a ciência é um discurso arrogante – e talvez Henri Bergson deixe entrever, aí, mais um motivo pelo qual Barthes parece afirmá-lo com acerto. Nesse mesmo ponto, tropeçam empirismo e racionalismo, por recomporem o objeto através de traduções, de estados psicológicos, indo diferir apenas em que o racionalismo afirmará a unidade na pessoa e o empirismo, a multiplicidade de estados psicológicos (Bergson, 2006: 201). Isso não impede que ambos encontrem-se submersos no caldo da mesma ilusão – imersão que estreita muito as diferenças entre ambos, pois raciocinam sobre elementos da tradução como se fosse o original 
O que importa à filosofia não é saber que a pessoa é unidade ou multiplicidade, mas que unidade, que multiplicidade, que realidade superior ao uno e ao múltiplo, a ser conhecido na intuição do eu pelo eu (Bergson, . Nesse sentido, na história da filosofia, o pensamento bergsoniano foi, sem dúvida, ontologicamente mais radical que o de Martin Heidegger, e formulado quase um quarto de século antes de Sein und Zeit.[6]
A grande ruptura bersgsoniana consiste na redefinição do trabalho do pensamento: não mais ir dos conceitos à coisa, mas conhecer indo da coisa aos conceitos . Os conceitos encontram-se imóveis na medida em que se os considera; no entanto, segundo Bergson, não há estado da alma que não mude incessantemente. Isso torna impossível realizar o caminho tradicionalmente feito pela inteligência: aquele que pretende passar da análise à intuição; para Bergson, apenas a passagem da intuição à análise seria possível – e isso se deve precisamente à duração. 
 
Não há como isolar um estado de sua memória. Isto é, a duração “é vida contínua de uma memória que prolonga o passado no presente, seja porque o passado encerra distintamente a imagem incessantemente crescente do passado, seja, de forma mais provável, porque testemunha, por sua contínua mudança de qualidade, a carga sempre mais pesada que arrastamos atrás de nós à medida que envelhecemos mais” 
. O passado deve sobreviver no presente para que haja duração; senão, apenas haverá instantaneidade, ponto no espaço como decadência do tempo.

Tomado em si mesmo, o estado psicológico é perpétuo devir; quando se extrai dele determinada qualidade que se supõe invariável, constrói-se um estado estável e esquemático. Dele retirando o tempo como devir em geral, constrói-se não mais o devir disso ou daquilo, mas propriamente o tempo que o estado ocupa. Olhados em conjunto, tanto a apresentação esquemática do estado como a conceitualização espacializada do tempo (sucessão de momentos distinguíveis, a linha do tempo atravessando infinitos pontos, ou instantes), são igualmente imóveis e abstratos. Isso que escoava em contínua mudança qualitativa, que fazia jorrar sua diferença, tornou-se, agora um meio imóvel .

É necessário reconduzir o estado ao eu que dura – duração que não pode ser repartida, relacionada, imobilizada por uma tentativa de mensuração da inteligência. Instalando-se o conhecimento sobre a intuição, “Reconhece-se o real, o vivido, o concreto, pelo fato de que ele é a própria variabilidade” 
.
Como a mobilidade nos escapa, tendemos a assinalá-la em função do espaço, e a fazemos coincidir, por uma ilusão, com os pontos pelos quais o corpo passa – e, então, podemos dizer que imobilizamos o movimento, pois ou o corpo que se move passa por cada um dos pontos, num dado tempo, ou apenas deixa atrás de si, no espaço, um rastro de seu movimento que a intuição apreende como absoluto, como experiência interior do movimento real e indiviso . No primeiro caso, em que adicionamos ao movimento sua passagem ponto por ponto, dizemos que o corpo passa por tais ou quais pontos no espaço; e sua passagem de um ponto ao outro continua a ser algo misterioso e inapreensível, justamente porque a inteligência, ao invés de mover-se na intuição, imobiliza-se na representação do movimento. Isso ocorre porque os pontos, assim representados, não são partes do movimento, mas símbolos dele – incapazes de fabricar a realidade.  Bergson explica essa passagem impossível dizendo que o movimento é anterior à imobilidade.

Pois bem. E como fazer para que o trabalho metafísico, filosófico, não recaia em uma pura e simples contemplação de si, se, de fato, a metafísica tem por objeto a mobilidade da duração, e se a duração é de essência psicológica, embora não se confunda com tal essência?

Tal pergunta, diz Bergson, ainda impõe, em suas entrelinhas, um desconhecimento da natureza singular da duração, bem como o caráter essencialmente ativo da intuição.
.Mesmo porque a consciência exprime uma duração que o eu pode experenciar; mas isso não implica identificar consciência com duração; isso seria reduzir a duração a determinado estado psicológico.

Se, pelo contrário, escolho instalar-me na duração por meio da intuição, é como se considerasse a duração como uma multiplicidade de momentos conectados por uma unidade que os atravessaria a todos, e então teríamos, por menor que seja a duração, momentos em um número ilimitado. Houvesse apenas instantaneidade, teríamos uma pluralidade de momentos dispostos a desvanecer; de outro lado, se aprofundamos a intuição sobre a unidade, tenderemos a enxergar na duração uma certa eternidade, um essencial intemporal do próprio tempo – eternidade da morte, uma vez que a mobilidade do tempo é a própria vida.

No escoamento concreto da duração, não poderia haver nenhuma duração além da nossa, como na cor alaranjada: podemos seguir a duração um grau abaixo, e encontrar o amarelo, como podemos seguir um grau acima, e encontrar o vermelho. De todo modo, trata-se da mesma duração, mas com diferentes graus e, diz Bergson, acima ou abaixo transcendemos a nós mesmos (
Abaixo da consciência, a pura repetição, que Bergson denomina materialidade. Acima da consciência atingimos uma duração que se tensiona e adensa, fazendo-nos aproximar de uma eternidade não mais conceitual, mas movente, vívida. Esse caminhar da intuição que se move entre os limites da materialidade e do espírito, e ali não experencia senão as diferentes velocidades da mesma duração, é o movimento metafísico do bergsonismo

Diante disso, Bergson formula os princípios de seu método. Consente com o senso comum filosófico ao afirmar que “I. Há realidade exterior e, no entanto, dada imediatamente a nosso espírito” (Bergson, 2006: 218), mas curto-circuita a metafísica realista, como a idealista, quando escreve que “II. Essa realidade é mobilidade”, embora, afastando Heráclito, afirme as substâncias pelo seu movimento, por sua duração vívida: não há coisas feitas, mas coisas que se fazem – por isso, toda a realidade é, para Bergson, tendência (2006: 219).
Bergson (III) admite a inclinação da inteligência para reconhecer estados e produzir concepções estáveis – mas não se trata, aí, de fazer metafísica, de apreender a interioridade do objeto, mas de servir-se da inteligência, da utilidade dessa faculdade do espírito que, rodeando os objetos, vale-se de infinitos pontos de vista, sempre relativos, deixando escapar a própria essência do real. Isso conduz ao quarto princípio, (IV) que impede que a coisa possa ser essencialmente reconstruída em sua mobilidade vivaz a partir dos conceitos fixos (Bergson, 2006: 220). Precisamente na denúncia dessa impotência, (V) vão fixar-se as escolas céticas, críticas, mas elas terminam, em sua constatação, a dizer, como Kant, que se não podemos apreender o objeto em sua essência, se não podemos ter acesso ao absoluto, há que se conhecer o que é possível conhecer, e pela via do dogmatismo. Para Bergson, porém, (IV) o espírito pode seguir o caminho inverso, instalando-se na realidade móvel, adotando sua direção sempre cambiante, e apreendê-la intuitivamente .
 
.Por isso, o pensador francês afirmava que “Filosofar consiste em inverter a direção habitual do trabalho do pensamento”. Uma inversão que merece ser efetuada metodicamente, pela intuição, a fim de (VII) operar diferenciações e integrações qualitativas (Bergson, 2006: 223). A metafísica afastou-se desse alvo. Da necessidade de a intuição, uma vez encontrada, precisar buscar um modo de expressão (VIII), impõe-se-lhe um conhecimento simbólico, relativo, por conceitos preexistentes, que falha na tentativa de reconstituir o movente a partir do fixo.
Atingir o absoluto, diz Bergson, custa à intuição instalar-se no movente e adotar a vida mesma das coisas: ponto em que devem confluir ciência e metafísica (Bergson, 2006: 224). (IX) “(...) a filosofia deveria ser um esforço no sentido de ultrapassar a condição humana” (Bergson, 2006: 225). Talvez um nietzscheanismo de Bergson.. Kant, em sua Crítica da Razão Pura, teria nos convencido de que o pensamento não é capaz de mais nada senão de platonizar, “isto é, de vazar toda a experiência possível em moldes preexistentes” (Bergson, 2006: 230).

Contra o kantismo platônico das teses imóveis, Bergson convoca uma filosofia da intuição que ainda vive nos filósofos (Bergson, 2006: 232). A intuição nada tem de misteriosa. Para chegar a ela, é necessário, primeiro, ter tido longas relações de camaradagem com as superfícies, conhecendo os fatos, fundindo-os, neutralizando-os, a ponto de “libertar a matéria bruta dos fatos conhecidos” (Bergson, 2006: 234). A metafísica, assim, não poderá ser a mera síntese desses fatos exteriores; e, embora não constitua uma generalização da experiência, deveria definir-se como a experiência integral.
Nietzsche dizia que a verdade deveria ter dois pés – embora, para sustentar-se, fosse suficiente ter um; com dois, porém, ela andaria e circularia... Bergson, com Nietzsche, deram a Deleuze o deserto errático de um pensamento nômade e de uma verdade andarilha. Deram também dois pés para errar por ele – fazendo do sustentar-se sobre a terra uma ilusão dissipada na pura intensão real de um movimento absoluto.

Fonte:
http://murilocorrea.blogspot.com/2009/11/henri-bergson-introducao-metafisica
Sejam felizes todos os seres. 
Vivam em paz todos os seres. 
Sejam abençoados todos os seres.

FRÉDÉRIC WORMS e BERGSON


Entrevista 

Frédéric Worms

Considerado o maior especialista na obra de Bergson, Frédéric Worms é coordenador do Centre International d’Étude de la Philosophie Française Contemporaine e professor da École Normale Superieure, em Paris. Atualmente, é responsável pelo relançamento da obra integral de Bergson na França, sob o título Le Choc Bergson. Além da coautoria da biografia de Bergson, Worms publicou outros três livros sobre o filósofo: Introduction à Matière et Mémoire (PUF, 1997), Le Vocabulaire de Bergson (Ellipses, 2000) e Bergson ou les Deux Sens de la Vie (PUF, 2004). Nesta entrevista à CULT, Worms explica as razões extrafilosóficas para o abandono do bergsonismo no pós-guerra e fala sobre a retomada do pensamento bergsoniano em diversos campos do conhecimento, da neurociência à bioética.

Eduardo Socha

CULT – Você está coordenando a primeira edição crítica da obra completa de Bergson. Poderia resumir quais as motivações para essa edição com o título curioso de “o choque Bergson”?
FRÉDÉRIC WORMS – Na verdade, não deveria se chamar assim. A ideia fundamental dessa edição é incentivar a leitura de Bergson como um clássico, ou seja, ler o filósofo sem as opiniões do tipo “a favor” ou “contra”. Para cada livro, há um material analítico e científico que justifica a presença do filósofo na história dos grandes pensadores. O editor optou por “choque” porque percebeu que ele ainda é pouco lido e, principalmente, mal lido, mesmo que seu nome seja bastante conhecido na França. Então, segundo o argumento publicitário do editor, um “choque” deveria ser necessário para redescobrir Bergson. Choque que não deveria acontecer, mas…

CULT – Temos a impressão de que, principalmente nos anos 1960, Bergson era um autor quase “proibido”, permanecendo esquecido até praticamente a década de 1980…
WORMS – Realmente, houve uma grande recusa antes desse esquecimento. Nos anos 1930, Bergson sofreu críticas da geração de Sartre e Merleau-Ponty, sobretudo por razões políticas e históricas. Na França, isso se acentuou nos anos 1960, porque Bergson foi compreendido como um filósofo do espírito em sentido metafísico, enquanto Sartre era o filósofo da existência, da história. O momento filosófico dos anos 1960 era o momento da linguagem e da estrutura por excelência. Mas hoje percebemos que isso já existia em Bergson. Ou seja, houve um Bergson existencialista, como aquele de Jankélevitch ou do próprio Merleau-Ponty; houve um Bergson estruturalista, como aquele de Deleuze. Mas isso não era compreendido na época por várias razões.

CULT – Que razões eram essas?
WORMS – Razões exteriores à obra. Havia o preconceito de que era apenas mais um espiritualista, o que no fundo significava ser independente de toda posição política, ao contrário do imperativo de engajamento definido pelo marxismo da época. Acho que o mais grave foi a ideia de que ele defendia cegamente o nacionalismo francês durante a Primeira Guerra; mesmo que tenha deixado claro, em Duas Fontes, que não era nacionalista, já era tarde demais. Para toda uma geração, Bergson pertencia a uma França da Guerra, a uma França que era preciso esquecer.

CULT – Apesar dos esforços de Gilles Deleuze para corrigir essa imagem?
WORMS – Houve exceções. Nos anos 1930, Vladimir Jankélevitch, Jean Wahl e Maurice Merleau-Ponty. Nos anos 1960, Deleuze, mas também [o filósofo brasileiro] Bento Prado Júnior. Foi uma pena o livro de Bento Prado não ter sido publicado na época
…
CULT – No ano passado, comemoramos o centenário de A Evolução Criadora, a obra mais conhecida de Bergson, pela qual recebeu o Nobel de Literatura. O prêmio literário acabou reforçando o preconceito da falta de rigor conceitual que ainda hoje se atribui ao filósofo?
WORMS – Sem dúvida, um Nobel de Literatura para um filósofo às vezes se transforma em presente de grego. Albert Camus disse, por exemplo, que Bergson era apenas um grande poeta. Nesse sentido, o prêmio foi uma armadilha. No entanto, apesar da centralidade das imagens e das metáforas no pensamento de Bergson, seus conceitos são igualmente importantes.

CULT – Quais os desafios mais relevantes para o bergsonismo hoje?
WORMS – Para mim, sua importância concentra-se principalmente no estudo da ética e da técnica. No plano ético, trata-se de pensar o homem sem reduzi-lo a um objeto, para em seguida enraizar a moral na vida, sem reduzi-la também a um objeto. Na compreensão da técnica, como resultante da própria natureza instrumental do homem. O projeto bergsoniano procura dar conta da articulação entre técnica (que por definição não é boa nem má) e moral.

CULT – Você vê contribuições no domínio da bioética?
WORMS – Sim, porque é a única filosofia que inscreve o homem no vivente e que mostra que o sentido vitalista corresponde ao sentido de liberdade, de permanente superação; a natureza não é uma essência à qual estamos aprisionados e à qual devemos retornar. Do ponto de vista da ecologia, é um pensamento bastante importante, porque realiza a crítica da razão instrumental não para defender o retorno a uma cultura/razão primitiva, mas para defender o desenvolvimento da relação entre homem e natureza. Bergson vê claramente, assim como Heidegger, que o homem corre o risco de destruir a natureza, mas que é equivocada a oposição entre homem e natureza. Na verdade, é preciso opor não o homem e a natureza, mas duas relações possíveis do homem com a natureza: uma relação de destruição e uma de liberdade. Os ecologistas que criticam toda ação humana parecem não compreender que o homem faz parte da natureza, que o objetivo humano é jogar uma parte da natureza contra a natureza naturante. Lembre da palavra pharmakon, que em grego significa ao mesmo tempo veneno e remédio. A tecnologia nuclear serve tanto para a produção de bombas quanto para aplicações na medicina. O verdadeiro objetivo de Bergson é dizer que precisamos da técnica, mas que não podemos nos enganar quanto ao seu uso. Não se trata de retroceder. Reformar as instituições políticas nesse sentido também é necessário porque de nada serve a técnica seu uso consciente . A natureza e a técnica não são problemas da ontologia, mas da moral.

CULT – Quais seriam as linhas de estudo que mais chamam a sua atenção entre as pesquisas sobre Bergson hoje?
Eu citaria três. A primeira estaria ligada à vida tanto em sua dimensão prática, limitante, primordial de nossa existência quanto em sua dimensão temporal e criadora, vinculada à moral e à religião; compreender o homem como pensante, agente, vivente ao mesmo tempo. A segunda linha está relacionada à história do pensamento, a fim de compreender o século 20 e aquilo que chamo de “momento 1900” na filosofia, ao lado de contemporâneos como Freud, Husserl, Durkheim etc., ou seja, sua relação com problemas maiores no campo da ciência, da metafísica, da arte etc. E, por fim, um campo de estudo dedicado à sua própria criação intelectual. Assim como se faz em relação a todo cânone do pensamento, é preciso estudar Bergson por ele mesmo, pelo seu conceito de duração, pela sua distinção entre “fechado” e “aberto” no âmbito da moral. É preciso, portanto, estudar Bergson pela perspectiva vitalista, pela perspectiva histórica, e também por ele mesmo, sem confundir esses três planos. É o que nos mostram os estudos bergsonianos hoje, que se renovam no mundo todo, em especial na França e no Brasil.

CULT – Como vê as críticas a Bergson de que seu pensamento ainda permanece refém das ultrapassadas filosofias do absoluto?
WORMS
– É verdade que é uma filosofia do absoluto, mas, para Bergson, o absoluto está em nossa vida. Temos a experiência da alegria, da criação, da duração, e cada um de nós, no ato livre, compreende que está no absoluto. Inversamente, há atos de destruição absoluta. Então, sempre vivemos no absoluto. Ser relativista significa pressupor que a vida é um espetáculo que podemos apenas observar. A filosofia de Bergson acredita em um absoluto não transcendente, que não está além da experiência, além da nossa vida, mas um absoluto do aqui e agora.

CULT – Bergson defendia que a filosofia deveria ser colaborativa e não mais a obra sistemática de um único pensador. A filosofia do século 20, com a diversidade de suas manifestações, sinalizou o fracasso da intenção de Bergson?
WORMS – De fato, o século 20 testemunhou antes a dispersão da filosofia do que sua unificação. Por outro lado, para além dessa dispersão de linguagens, escolas, discípulos, os fatos objetivos e as intuições singulares continuam a se comunicar. A unidade da filosofia permanece não apenas como ideal, mas como realidade concreta e uma exigência, abaixo e acima dos conflitos absurdos entre as seitas. Abaixo, no sentido de conhecer a realidade de nossas vidas. Acima, na correlação entre os grandes pensadores. Ciência e filosofia sempre superam, portanto, aqueles que desejam opor uma à outra. Bergson insistia nisso e talvez não estivesse errado.

CULT – Para resumir, por que estudar Bergson no século 21 para além do interesse exclusivamente universitário?
WORMS – Não separemos os interesses. Jean Wahl, um dos grandes alunos de Bergson, dizia que ele era um grande acadêmico e um grande antiacadêmico. Se não estudarmos sua obra rigorosamente, poderemos nos tornar vítimas do tipo de embate ideológico que o incomodou profundamente. Hoje não se pode negligenciar a vida em sua dimensão real, concreta, frágil, nem em sua dimensão última, intensa, metafísica, talvez menos real. Não se trata de resgatar apenas sua doutrina. Devemos retomar seu gesto duplo: a crítica aos falsos problemas e a formulação daqueles que realmente importam. Essa é a verdadeira responsabilidade da filosofia.

Entrevista – Frédéric Worms-

Publicado em 01 de março de 2010

Sejam felizes todos os seres. 
Vivam em paz todos os seres. 
Sejam abençoados todos os seres.