.::Programa A Era da Luz::. Patrocinado pela Capemisa Vida e Previdência e Capemisa Social
Edição nº 128 Temas: Auto-cura, mediunidade, Era do Mentalismo Comunicadora: Marcia Beatriz Zenkye. Convidadas: Ana Paula Merino e Renata Pereira. Convidada: Sílvia Rezende. Atendimento fraterno(telefones): Sheila e Josué Motta.
Programa
semanal da Rádio RJ, 1400 AM, apresentado às segundas, das 22 h à meia
noite, por Carlos Vereza e Márcia Beatriz Zenkye, ao vivo, com reprise
aos sábados de 12 às 14 h. ON LINE - www.radioriodejaneiro.am.br/oucaoaudio)
O
programa tem como objetivo a divulgação das doutrinas que se voltam
para o bem coletivo, a caridade indistinta, o amor universal e
incondicional, a união de credos, crenças, etnias, na prática do AMOR
ÁGAPE E CRISTÃO. Busca promover à criatura humana o sentido mais amplo e
irrestrito ao alcance de sua dignidade. Envolve os segmentos da arte
musical, dramatúrgica, poética, cultural e doutrina espiritual,
mensagens e reflexões, canal aberto com ouvintes, recebe convidados e
palestrantes ao foco pertinente, e, ainda, acopla um momento de oração
vibracional destinada à cura indistinta sem mistificações, reafirmando e
esclarecendo acerca da fé genuína e do merecimento de cada ser humano.
O
princípio essencial deste trabalho, apolítico e não partidarista, é a
não crítica, o não julgamento, o aperfeiçoamento encorajador à
qualificação do próprio homem, o AMOR ESSENCIAL E UNIVERSAL POR TUDO E
TODOS INDISTINTAMENTE.
Trata-se de uma total higienização nos campos:
mental, emocional, social, ambiental e espiritual, num ideal coletivo
de percepção e recepção da LUZ: a conscientização do papel que ocupamos,
verdadeiramente, no planeta.
E quem pode escutá-lo? Todas as
faixas etárias, todos os credos, crenças e etnias. Aos aflitos, aos de
alma serenada, ao rico e ao desafortunado, aos descrentes e aos repletos
de esperança, aos de bom ânimo e aos ainda acovardados, aos despertos e
aos que precisam acordar, aos sãos e aos doentes, aos carentes e aos
guarnecidos de amor, aos que choram e aos que sorriem, aos que muito
pedem e aos que nada esperam, aos que toleram e aos que ainda se
impacientam, sobretudo, aos caminhantes de jornada que estejam dispostos
a enxergar a existência muito aquém das ondas que estouram nas praias
existenciais e bem além do horizonte infinito...
João Carlos Holland de Barcellos ( Outubro / 2006 )
[Este
ensaio procura explicar como um sistema de produção, como o
capitalismo, depois de crescer até se tornar uma ideologia política
dominante, afeta todos os ramos de nossas vidas e como consegue se
manter apesar de beneficiar apenas uma minoria.].
Se alguém lhe perguntasse: “Quem você é?”, ou então, de uma maneira mais geral: “Quem somos nós?” No sentido de saber o que você acha de sua verdadeira essência, o que você responderia?
Talvez
mandasse seu interlocutor “plantar batatas”, se filosofia não fosse
mesmo sua “praia”, ou então, pensaria um pouco mais, e responderia algo
do tipo “Eu sou minha consciência”. Desde a revolução industrial as
populações, em especial as do mundo capitalista ocidental, têm aderido
cada vez mais, e em maior grau, à cultura do “Eu consciência”. Antes de
nos aprofundarmos nas conseqüências dessa crença, e o que ela veio a
servir, devemos nos perguntar: Essa visão sempre foi assim? Se não, o
que havia antes? Por que isso teria mudado? Para respondermos estas e
outras questões precisaremos voltar um pouquinho no tempo... A Revolução Industrial
Antes
da revolução industrial, o modo como cada indivíduo fazia para ganhar a
vida era bem diferente da de hoje em dia: não havia computadores, não
havia anticoncepcionais, as famílias eram numerosas e pouquíssimos
tinham algum tempo para filosofar ou pensar em coisas como o “sentido da
vida” ou “a razão da existência”. Os homens trabalhavam duramente, em
geral através de sua força física, para sustentar seus lares, e suas as
mulheres cuidavam da casa e dos filhos. O objetivo básico era o
sustento, a manutenção da família. O pensamento era bastante
conservador: “Mulher trabalhar fora? Que absurdo! Onde já se viu uma
coisa dessas?! Largar os filhos para ganhar dinheiro!?”. A religião
tinha um papel muito importante no pensamento e na educação familiar.
Naquela época, a resposta mais provável à nossa pergunta inicial deveria
ser algo como: “Nossa essência está em nossa alma, claro.”. Sendo a
suposta alma imortal, a essência do ser estaria garantida para todo o
sempre no “Paraíso” ou noutro lugar seguro, dependendo da religião.
Enquanto
isso, a população aumentava, as terras cultiváveis diminuíam, e as
cidades cresciam. Com o advento da revolução industrial, e a mecanização
cada vez maior da força humana bruta de trabalho, a produtividade pôde
ser multiplicada milhares de vezes. Abriram-se as possibilidades de
comércio e de lucro com novos mercados, antes impossíveis de serem
explorados já que a produção era movida apenas pela força animal. A
mecanização fez aumentar o desemprego nas regiões não produtoras e
aumentar a demanda por mão de obra, principalmente mão de obra
qualificada, nas regiões fabris. Enquanto as empresas cresciam, e
engoliam os pequenos produtores artesanais, novos problemas começaram a
surgir.
Embora as máquinas vomitassem peças e
componentes sem parar, ainda não podiam fazer, mecanicamente, o trabalho
delicado de montagem ou de embalagem. Este trabalho ainda precisava de
mãos humanas habilidosas. Além disso, com a produção em escala
crescente, novos problemas apareceram: Como controlar a produção? A
contabilidade? O controle de estoque, as contas? Como desenvolver novos
produtos? Como fazer pesquisa de mercado? Antes das máquinas a vapor as
empresas não podiam ser muito grandes e estes problemas não existiam.
Mas a partir delas tudo mudou. As empresas cresciam, e para resolver
estes e outros problemas relacionados a seu crescimento, houve um
aumento da demanda por de mão de obra mais qualificada e especializada. O
potencial de mercado, e de lucro, era enorme: Literalmente o mundo
todo. O globo precisava ser suprido, e rápido, se não a concorrência o
faria. Mas como resolver o problema de conseguir mão de obra qualificada
sem onerar os lucros, e, de preferência de forma rápida e barata?
O Feminismo
A
solução para estes problemas era urgente. E foi resolvido de forma
rápida e genial: Se a mulher fosse introduzida no mercado de trabalho a
oferta de mão de obra poderia ser rapidamente dobrada, já que a força
bruta já não era mesmo mais necessária. A mulher poderia trabalhar em pé
de igualdade com os homens e isso traria uma dupla vantagem ao
capitalismo: Duplicaria a oferta de mão de obra e diminuiria,
naturalmente, o salário médio já que aumentaria a concorrência. Com a
diminuição geral do salário do homem, devido à crescente concorrência
feminina, haveria naturalmente uma pressão para que a mulher, que não
trabalhava fora de casa, também entrasse no mercado para, ao menos,
manter o nível de renda anterior da família, já que seu marido teria seu
salário reduzido. Mas para a mulher entrar no mercado de trabalho era
imperativo quebrar o antigo estigma, o “tabu” de que ela deveria
permanecer no lar cuidando da casa e dos filhos. Criaram-se então
condições propícias para que o feminismo deslanchasse, e fizesse o
“trabalho sujo” que o capitalismo precisava: Inocular em todas as
mulheres o meme (a idéia) de que trabalhar em casa era coisa
ultrapassada e antiquada. Que a felicidade não estava na família, em
cuidar da casa e dos filhos, mas fora dela, que só se poderia ser feliz
nessa vida se fosse encontrada independência financeira, mesmo que essa
fosse apenas ao nível de mera subsistência. Apertar parafusos numa
fábrica deveria ser, claro, muito mais digno do que amamentar seu
próprio filho.
Assim, o capitalismo quebrou o primeiro e
importante elo de felicidade da humanidade: As mães já não poderiam
cuidar de seus filhos como vinham fazendo há dezenas de milhares de
anos. Pois lhes fizeram acreditar que isso era antiquado e gerava
infelicidade. Deveriam, a partir de então, prepararem-se para competir
no mercado de trabalho com os homens. A meta feminina seria um cargo de
executiva com alto salário e subordinados masculinos –oh glória! O
casamento e a maternidade deveriam ser repensados. Se houvessem filhos,
estes deveriam “se virar” em creches comunitárias, com babás ou então,
para quem tivesse muita sorte, com suas avós. Mas estas, como veremos,
deveriam cada vez mais, rejeitar este papel, já que elas também lutaram
tanto para não tê-lo.
Ofereça teu filho ao “deus mercado”
Com
o aumento da oferta de mão de obra e a mecanização da produção o
conhecimento e a tecnologia tiveram grandes avanços. Isso permitiu que
os produtos agregassem cada vez mais tecnologia e inteligência e, com
isso, ficavam também cada vez mais caros. Além disso, o mercado
precisava, cada vez mais, de pessoas com conhecimentos especializados, e
isso demandava muitos anos de estudos. Pessoas desqualificadas não
interessavam ao mercado de trabalho. Não se poderia constituir família e
trabalhar antes de se passar pelo menos 15 anos estudando. Filhos úteis
para o mercado custavam muito dinheiro. Além disso, famílias numerosas
não poderiam adquirir produtos caros já que seus filhos precisavam
passar anos e anos nos bancos escolares antes de arrumarem o primeiro
emprego. Qual seria o mercado para uma produção cada vez mais
sofisticada e cara? Família com poucos filhos. No máximo dois. Isso não
apenas garantiria renda como também um mercado consumidor para os novos
produtos “high-tech” que precisavam ser consumidos. Além disso, se
criariam condições favoráveis para que as famílias preparassem seus dois
filhos com qualidade nos estudos para que pudessem ser facilmente
“consumidos” pelas empresas detentoras de tecnologia. Entretanto, como
foi no caso do feminismo, para que esta solução também vingasse, seria
preciso inocular nas mentes humanas um meme adequado.
O meme-vírus “vm2f”
A
redução do número de filhos traria, portanto, um duplo benefício ao
sistema: Aumentaria a oferta de mão de obra qualificada como também o
poder de consumo per capita. Isso permitiria o crescimento do parque
consumidor de produtos mais caros e com alta tecnologia agregada.
Satisfazer o mercado interno era pré-requisito para disputar o grande
mercado externo. Criaram-se então condições muito favoráveis para que o
“vm2f” se disseminasse pela população. O “vm2f”
(vírus-meme-dos-dois-filhos) é um poderoso agente meme viral que faz com
que seu portador acredite - e independentemente da renda familiar!- que
se ter mais do que dois filhos, é um ato que deve ser visto como
arcaico, e obsoleto, que é uma prática ilógica e retrógrada, proibitiva
mesmo, e que deve ser evitado a qualquer custo: “Onde já se viu uma
coisa dessas?!?”, “Filho é coisa de pobre!, de gente ‘desletrada’,
inculta e que não tem o que fazer!”.
Assim, o “vm2f”
foi disseminado na sociedade, e atualmente contamina a mente de
praticamente todas as pessoas dos países capitalistas. Quantos casais,
que se consideram cultos, com mais de dois filhos, você leitor,
conhece? Seria também interessante para o mercado que tal meme-vírus
atingisse a maioria dos países consumidores, de outra forma não teriam
renda para comprar as caras e sofisticadas quinquilharias produzidas
pelos exportadores.
A despeito da infelicidade
individual gerada, ou não, o fato é que as medidas adotadas, a
inoculação massiva de memes ideológicos específicos, geraram, pelo menos
para os paises exportadores de artefatos tecnológicos –os de primeiro
mundo- um grande acumulo de capital e de riqueza, o que possibilitou um
excedente suficientemente grande para permitir uma significativa redução
da jornada de trabalho e também dispositivos legais para distribuição
de renda e redução da pobreza. Infelizmente, entretanto, para os países
subdesenvolvidos, ou em desenvolvimento, importadores de bens
tecnológicos e exportadores de matéria prima, ficariam o desemprego e a
miséria.
“A Cultura do Eu”
De
qualquer modo, seja nos países detentores de tecnologia, seja nos
países consumidores dela, houve um aumento do conhecimento e do tempo
livre disponível. Isso criou condições para uma maior reflexão crítica
dos dogmas religiosos e uma grande proliferação de religiões e cultos
alternativos. O “Céu” ou o “Paraíso” já não eram lugares garantidos onde
se iria estar. A única certeza liquida e certa, era de que a felicidade
podia ser sentida aqui mesmo, no plano terreno. Qualquer promessa de
felicidade no “pós morte” poderia ser contestada já que, apesar dos
esforços, nunca se provou nenhuma evidência científica de vida além da
morte. Tais pensamentos produziram um caldo rico para o que podemos
agora chamar de “A Cultura do Eu”.
A “Cultura do Eu”
tinha -e tem- por norma básica o pressuposto de que a única felicidade
que podemos realmente obter é aquela que poderemos sentir em vida. E
este “Eu” reside na minha consciência já que é ela que de fato sente o
prazer. Isso conduz a um individualismo extremado: “O meu prazer, a
minha felicidade, está na minha consciência e não na do outro”. A
“cultura do eu” faz com que o comportamento do homem capitalista médio
seja direcionado a dois objetivos básicos destinados a obtenção de
prazer: O Consumismo, e a Cultura do corpo.
O Consumismo
O
Consumismo é uma maneira de obter prazer através do mercado: Comprar,
comprar e comprar. Assim o dinheiro é o grande valor, através dele se
pode dar vazão aos chamados “sonhos de consumo”. A obtenção de bens
também traz prazer na forma de “Status” já que compra mais quem pode
comprar mais e, claro, a obtenção de status patrocina o poder de sedução
sobre o sexo oposto (ou o mesmo). Embora não seja elegante ficar
desfilando com um aparelho de DVD último tipo pendurado no pescoço, nem
ficar falando o que se comprou ou vai se comprar é norma social aceita
falar das maravilhosas viagens que você fez para os lugares mais lindos e
caros possíveis ou desfilar com aquele carro da propaganda da TV. As
viagens não teriam tanta graça se não se pudesse falar delas: Pra que
comprar um lindo vestido se ninguém poderá vê-lo? Além disso, as viagens
representam o ápice da cultura do Eu: O investimento no prazer
imediato, no que o corpo pode sentir agora. Pra que poupar e economizar
(para os filhos?) se o que eu quero mesmo é sentir tudo o que eu puder
sentir? Afinal, a vida é só uma!
Meu cérebro é a fonte
do meu prazer e, necessariamente, ele está atrelado a um corpo. Se o
corpo não estiver “Ok” a mente também não estará, afinal, as dores do
corpo são sentidas no cérebro, na consciência. Além disso, se a
felicidade só pode ser vivida na Terra, uma felicidade máxima só é
conseguida través de um tempo de vida também máximo! Cuidar bem do corpo
é um meio, portanto, de aumentar a felicidade em vida. Iniciou-se então
a “Cultura do Corpo”. “A Cultura do Corpo”
A
“Cultura do Corpo” parte do pressuposto que só podemos ter uma mente sã
– capaz de usufruir prazer- se o corpo também estiver são. As
academias de ginástica e malhação se encheram como nunca. Caminhar,
correr, malhar tudo era válido, quem não lembra do “método Cooper” que
proliferava mais do que coelho? A gordura virou a grande vilã, sinônimo
de veneno. De uma hora para outra surgiram mais receitas para emagrecer
do que estrelas numa noite de verão. Criou-se mercado para todo tipo de
alimento possível e imaginável desde que prometessem um corpo mais
saudável ou bonito: Alimentos e bebidas “diet”, “light”, com fibras, sem
colesterol, com HDL, sem HDL, e etc.etc.etc... Quem não praticasse
algum tipo de exercício, não caminhasse, não corresse, estaria na
contramão da vida. O “cult” era, e ainda é, cultuar o próprio corpo.
Muitos
esqueciam, talvez nunca souberam, que a moda do corpo deveria ser
destinada a um aumento de felicidade, e não como um fim em si mesmo.
Assim, podia-se perceber pessoas que sofriam muito em suas malhações,
muito mais do que poderia obter de prazer através dela. Pessoas que
ficavam horas e horas correndo e se exercitando sem parar. O objetivo
foi esquecido, e o culto ao corpo acabou virando uma finalidade em si
mesmo.
Luta inglória
Este
tipo de comportamento, individualista ao extremo e egoísta, era
disseminado e enaltecido. Lembro-me de ter lido uma reportagem sobre uma
mulher na faixa dos 40 anos de idade que se vangloriava de não ter tido
filhos e através de muita malhação e ginástica diária ainda possuía um
corpinho de “39”. Até quando poderia ela lutar contra o tempo? Luta
inglória essa de perder tanto tempo tentando retardar o tempo e parecer
um pouco mais jovem. Se gasta dez anos da vida para parecer cinco anos
mais jovem! Individualismo e Neoliberalismo
A
“Cultura do Eu” trouxe consigo o individualismo extremado. Filhos são
considerados perda de tempo e um sorvedouro de preciosos recursos que
poderiam ser bem utilizados numa deliciosa viagem a búzios ou na compra
daquele carro que a TV anuncia. E, se ainda temos um “maldito instinto”
para eles (filhos) então que tenhamos um, no máximo dos máximos dois.
Isso será suficiente para para aplacar, para saciar estes ultrapassados
instintos animais que insistem em atrapalhar nossa vida de prazer.
Para
o individualista, a única felicidade que importa é a que ele consegue
sentir, a vivida pelo seu corpo. Promessas de um mundo melhor para
futuras gerações não lhe toca em absoluto. O individualista é, portanto,
e antes de tudo, um imediatista. Não lhe interessa se esforçar se quem
vai usufruir de seus esforços não será ele, e sim as próximas gerações.
Assim o individualismo tende a levar a sociedade e o ambiente a uma
degradação constante.
O Neoliberalismo é a ideologia
econômica que mais se adequada ao individualista. A ideologia neoliberal
apregoa a liberdade total de comércio entre países com a mínima ou
nenhuma intervenção do estado e isso significa, de preferência, sem
nenhuma taxa de importação. Dessa forma o individualista poderá consumir
rapidamente uma ampla diversidade de produtos importados e a um preço
bastante acessível.
Não importa ao imediatista se isso
irá quebrar as indústrias nacionais[8] – desde que elas não quebrem
enquanto ele trabalhe numa delas- já que as empresas costumam agonizar
por um bom período até fecharem ou serem vendidas para alguma
transnacional, com o conseqüênte enxugamento de pessoal e extinção das
áreas de desenvolvimento que isso costuma acarretar.
O
que o neoliberal quer mesmo é comprar suas bugigangas a preços baixos.
Para que “reinventar a roda” se já existe o produto pronto lá fora? Seu
pensamento é imediatista: ”É mais barato e rápido importar tudo pronto,
pra que desenvolver?”. Assim, o neoliberal é antes de tudo um
derrotista, mas claro, não o neoliberal de um país desenvolvido, e
detentor de tecnologia. Para eles o neoliberalismo é muito bom, é uma
garantia de lucros e empregos para seus compatriotas. Exportar sua
produção não é apenas uma forma de ganhar mercado, mas principalmente de
evitar que outros países consigam desenvolver tecnologia e concorrer
com eles no mercado internacional ou no seu próprio mercado doméstico.
Para que correr esse risco?!?
Podemos concluir que o
individualismo é uma decorrência direta da questão filosófica
fundamental “Quem somos nós?” quando a resposta está centrada numa
consciência, num corpo ou em um tipo qualquer de individualidade. O
individualista não se importa muito com a felicidade futura de seus
conterrâneos, já que, provavelmente, não estará mais neste mundo para
vivê-la. Não importa para ele se o país seja um eterno dependente de
tecnologia, ou não, já que o importante é poder ter sua sede de consumo
saciada rapidamente. Sua ideologia pode ser resumida numa pergunta:
“Para que sofrer agora construindo um futuro, se não se estará aqui para
usufruir?” Religiões: a “Matrix do Capitalismo”
O
problema da “Cultura do Eu”, e o individualismo que dele emerge, não
traz consigo apenas o egoísmo e suas conseqüências nefastas, ele, na
realidade, impede uma felicidade plena do próprio individuo, impelindo-o
a uma vida consumista, “vazia” desprovida de um sentido transcendente.
As religiões tradicionais perderam muito terreno, e continuarão
perdendo, simplesmente porque elas são inconsistentes, e tanto o
conhecimento como o QI médio da população tendem a crescer ficando cada
vez mais claro as contradições dos dogmas religiosos e a realidade dos
fatos. Não é por outra razão que uma miríade de seitas e cultos místicos
se proliferaram tanto. Entretanto, mesmo as seitas místicas ou os
cultos esotéricos, para uma mente um pouco mais lúcida, deixam a
desejar, pois tais seitas são baseadas em princípios sem nenhum respaldo
científico ou factual, o que vem a contrariar frontalmente a “Navalha
de Ocam”[9].
Apesar disso, o sistema investe pesado –
escolas e instituições de ensino pagam impostos, igrejas e templos não-,
principalmente através da mídia, na cultura religiosa, qualquer que
seja ela. Todo tipo de religião ou seita, mesmo que sejam totalmente
antagônicas ou contraditórias umas com as outras, é tolerado e
considerado normal. Ninguém deve ousar por em dúvida ou criticar a
crença alheia sob pena de ser taxado de “intolerante”. As contradições
entre elas, para o bem do sistema, devem ser ignoradas, afinal, um mesmo
deus não seria tão esquizofrênico para ditar normas diferentes para
seitas diferentes. O Ateísmo, por outro lado, não pode ser tolerado e
deve ser visto como uma aberração da natureza. Entretanto isso não
ocorre sem razão: A grande massa, a que forma a base da pirâmide, é
inculta e, ao mesmo tempo, extremamente perigosa. Se rebelarem-se
ideologicamente contra o sistema, este corre o risco de ruir. Para
mantê-los passivos é necessário dar-lhes esperanças de uma vida bem
melhor – o Paraíso – e mais: tanto maior será a chance de conquistar
este paraíso, quanto mais sofrida e servil for sua vida aqui na Terra.
Deve-se passar a eles a idéia de que, se estão passando por
dificuldades, isso não é culpa do sistema, que não distribui riquezas
com justiça, afinal “o sistema é o melhor de todos, voce não vê na TV?
”, a razão de seus sofrimentos, claro, são deles mesmo, e pode ser
explicada pelo que fizeram em suas vidas passadas (Espiritismo); Ou
então no grande pecado que seu antepassado (Adão) fez ao desobedecer ao
“Pai” e que por isso todos, sem exceção, devem pagar (Catolicismo); Ou
então, se sua religião não tem uma explicação para o sofrimento, por
certo tem uma boa razão para que você não anseie uma vida melhor:
Afinal, desejar coisas que você não pode ter é todo o motivo de seu
sofrimento, e por isso você deve evitar desejar. Desejar é errado, tenha
apenas o suficiente para sobreviver (Budismo).
As Religiões são tentáculos do sistema
O
sistema incute na base da pirâmide, formada pelos que tem menos acesso à
informação e educação, que a responsabilidade pelo sofrimento nunca é
do próprio sistema. Se, por exemplo, seu vizinho está desempregado e
passando fome, o sistema quer que você acredite que a culpa é dele
mesmo, ele que não foi esforçado o suficiente para conseguir um emprego.
Mesmo que o emprego se escasseie cada vez mais com a mecanização e a
globalização[1]. A culpa nunca é do sistema. Neste ponto entram as
religiões e igrejas atuando de forma a sublimar uma possivel revolta: O
que você deve fazer é rezar bastante para que Deus não permita que isso
aconteça com você também. Assim a reza funciona como sendo uma
importante válvula de escape contra uma possível revolta da imensa
multidão que está nas camadas mais baixas da pirâmide sócio-econômica.
Além
da reza, este tentáculo do sistema conta com outras formas de arrefecer
o sentimento de revolta: Fazer com que haja uma redistribuição de
recursos dos que já não tem muito a distribuir. Trata-se da Caridade. A
Caridade é um modo de o sistema retirar recursos daqueles que pouco tem
para distribuir aos que tem menos ainda, e claro, sem incomodar os que
estão no topo. Querendo ou não nascemos neste sistema e estamos imersos
nele. Atos caridosos devem ser vistos não como uma obrigação religiosa
ou como uma forma de azeitar nosso caminho a um paraíso que não
existe[2], mas sim como uma forma de minimizar as conseqüências nefastas
de um regime auto-destrutivo [1] que insiste em não evoluir.
Os “Guardiões da Pirâmide”
É
interessante notar como o sistema, como um grande polvo acéfalo,
consegue se auto-perpetuar. Não há necessidade de uma mente
centralizadora e malévola orquestrando quais os próximos truques e
artimanhas que deverão ser criados para que o povo continue passivo e
conformado. Não há um pequeno grupo de capitalistas, ricos e poderosos,
pertencentes a uma seita secreta, decidindo qual a próxima religião será
criada e quão eficiente será em promover a ilusão e a esperança. Nada
disso. O que acontece é o trabalho voluntário, e de certa forma, até
inconsciente, dos que estão no topo da pirâmide sócio-econômica. Eles
sabem muito bem o que têm lá embaixo e não querem, de modo algum, sairem
lá de cima e perderem suas regalias. O topo da status, poder, dizem que
até é afrodisíaco. Quem gostaria de sair e dividir? Governantes,
legisladores, grandes empresários e comerciantes, e, principalmente,
jornalistas e seus diretores, atuam em suas respectivas áreas de modo a
manterem-se – e também seus amigos e parentes - em seus postos
privilegiados e de altos salários.
Os legisladores,
por exemplo, criam leis com brechas para que o pessoal do TOP da
pirâmide jamais fique enclausurado (prisão foi feita pra pobre), ou que a
propriedade privada seja considerada sagrada e inviolável, ou que a
quebra de sigilo bancário seja um crime pior que o assassinato etc.; Os
empresários e comerciantes financiam a campanha dos partidos que
favorecerão suas empresas e negócios na esperança de que seus lucros
nunca diminuam; A mídia mostrando que o inferno é não fazer parte do
sistema, ou que todos os eventos bons são provas da existência divina e
por ai vai... Cada um que está no topo, e não quer correr riscos de
sair, dá a sua pequena, ou grande, contribuição para que a pirâmide
permaneça firme e bem plantada, independentemente do que ocorre lá na
base. São os “Guardiões da Pirâmide”. Se você sempre diz “Graças a Deus”
quando ocorre um evento bom mas, contraditoriamente, não diz o mesmo
quando ocorre um evento ruim, então você também é um pequeno guardião,
talvez até inconsciente, já que estaria contribuindo para manter a
crença no inexistente[2] e, portanto, ajudando a manter o tentáculo
religioso do sistema.
Genismo
Para
os seguidores do Genismo [3] “Nós somos nossos genes”. Isso significa
que nossa essência não está em nosso corpo e nem mesmo em nossa
consciência e sim no nosso conjunto de genes. Entretanto, diferentemente
de um “eu - consciência”, o “eu - gene” não reside apenas em nosso
corpo e isso faz toda a diferença do mundo. Nossos genes estão também em
nosso corpo mas não apenas nele, estão também em grande proporção em
nossos filhos, depois, em taxa decrescente, em nossos parentes, em nossa
espécie, depois em nosso gênero, família, ordem, classe, filo e reino.
Assim, temos genes compartilhados, em maior ou menor proporção, em todos
os seres vivos do planeta.
Por esta visão do que
somos, cada organismo vivo possui um pouco de nós e, claro, somos também
uma parte do que eles são. Isso acontece pela simples razão científica
de que todos os seres vivos são descendentes de um primeiro ancestral
comum: Uma molécula replicante, talvez algo próximo a um pequeno
segmento de RNA, que flutuava ao léo, no chamado ‘caldo primordial’ da
Terra há cerca de três ou quatro bilhões de anos atrás.
Como
somos todos descendentes desta molécula replicante todos compartilhamos
uma mesma origem e os mesmos ingredientes básicos que formaram a vida.
Assim, quanto mais próximos estivermos na árvore evolutiva, mais
semelhantes e mais empáticos seremos. Por esta razão seremos mais
sensíveis, teremos maior empatia [4], ao observarmos um mamífero como,
por exemplo, um macaco sendo pescado, ao morder um alimento com um
anzol, do que, um peixe ou um réptil. Entretanto, nossa empatia será
maior para seres de outras espécies se os observarmos como organismos
que compartilham parte de nós mesmos do que se os enxergássemos como um
outro organismo, totalmente distinto de mim, e que não tem a minha
consciência. Esse tipo de atitude para outras espécies pode ser tanto
mais radical e egoísta quanto mais o “eu-consciência” dominar a mente
humana.
Consciência efêmera
Um
genista sabe que sua consciência é efêmera e seus genes não. Após a
morte de seu corpo seus genes permanecerão. Isso significa que seu
“eu-gene” sobreviverá, de alguma forma, nos indivíduos que permanecerem
vivos. Preservar a vida é, portanto, uma forma de preservar a si
próprio. O meio-ambiente é onde a vida se manifesta. Se quisermos
preservar a nossa imortalidade genética deveremos preservar o lugar onde
ela se dará. Assim, no genismo, preservar o meio-ambiente não é apenas
um modismo de época, é uma segurança de que preservaremos a nós mesmos,
em outros corpos ou organismos.
Para um individualista
pode não ter muita importância o destino de seu país num futuro
longínquo. Se a Amazônia cairá ou não em mãos estrangeiras, se as
indústrias deixarem de ser nacionais ou não. Isso não é importante para
ele. Ele não estará mais aqui mesmo se estas coisas acontecerem. Talvez,
seja ainda melhor que seu país adote o modelo neoliberal e ele possa
então se abarrotar de quinquilharias modernas e baratas. Muito tempo
pode se passar até que todas as indústrias quebrem frente à concorrência
internacional, ele já não estará mais aqui para saber e já terá
usufruído bastante do livre-comércio. Por isso, quanto mais centrado o
indivíduo está em seu “eu-consciência”, maior será seu egoísmo, menos
preocupado estará com o destino de seu país e mais neoliberal ele será.
Dessa
forma o nacionalismo, sentimento de proteção à pátria, tende a ser
maior nos genistas pois estes sabem que seus genes tenderão a ficar no
mesmo país. Proteger o seu país é proteger seu próprio futuro genético.
Pode-se
argüir, com certa razão, que não é importante o local onde a felicidade
é gerada, se criamos felicidade em nosso país ou não. Assim, se
deixarmos de produzir empregos aqui para importarmos de fora estaremos
criando emprego lá fora que será sentido por alguém também e assim
estaremos, de certa forma, exportando felicidade. Esse argumento é
parcialmente verdadeiro, mas peca nos seguintes quesitos: Se a produção
externa for feita, por exemplo, de forma mais automatizada que a nossa,
então nossos empregos não seriam revertidos em felicidade na mesma
proporção que são retirados daqui. E, mais importante do que isso, se,
por exemplo, tivermos uma ideologia de que deveremos deixar de ajudar
nossos filhos para ajudarmos os filhos do “vizinho”, não obteremos a
mesma felicidade do que se ajudarmos os nossos próprios filhos. Isso
porque fomos construídos geneticamente para ajudarmos em maior grau
nossos próprios genes que estão em maiores proporções nos nossos filhos
do que nos filhos do vizinho. Ou seja, o nacionalismo não é apenas uma
forma de ajudarmos a nós mesmos no futuro, mas uma forma de aumentarmos a
felicidade total do planeta já que a felicidade está atrelada à forma
gene-perpetuativa de se agir.
A “Meta-Ética-Científica”
O
genismo está atrelado a “Meta-Ética-Científica” (MEC) [5]. A MEC
estabelece que sempre se deva agir no sentido de maximizar a felicidade.
Ações justas e éticas são aquelas que patrocinam maior felicidade em
relação às outras.
A partir deste principio de
maximização de felicidade podemos concluir que um desnível muito grande
na distribuição de renda deveria ferir a MEC. Para entender isso, pense
no seguinte caso hipotético: Um rico empresário gasta dois milhões de
dólares num carro esportivo para atender seu desejo de status. Ele para
com seu formidável carro num farol onde uma mulher miserável com seu
filhinho de colo, que naquela noite irá morrer de frio, pede alguns
trocados. Você acha justo que se possa gastar dois milhões de dólares
para atender um capricho de consumo enquanto seres humanos, ao seu lado,
morrem, literalmente, de necessidades básicas? Se você for um “Guardião
da Pirâmide” a resposta será SIM. Caso contrário achará que não tem
muito sentido que este tipo de coisa seja possível de acontecer. Um
sistema que permite que alguns poucos possam se dar ao luxo de gastar
muito para atender a um capricho consumista[6] enquanto muitos morrem de
fome, não é um sistema que nós possamos nos orgulhar[7].
Entretanto,
sabemos que o homem é um ser competitivo por natureza, quer e precisa
se destacar, por isso seria contra a natureza humana colocá-lo em um
sistema de produção que nivele todos na base, como se todos fossem
iguais. As pessoas são diferentes uma das outras, possuem capacidades
diferentes, algumas mais esforçadas, outras mais criativas, outras mais
inteligentes, e assim por diante. Obrigar o mais esforçado e criativo a
ganhar o mesmo que um preguiçoso também seria injusto. Temos que dar
vazão e liberdade e à criatividade humana. Os sistemas que quiseram
engessar a todos, como se todos fossem iguais, não deram muito certo:
Provocaram sofrimento e frustrações desnecessariamente. Tolheram demais a
liberdade e a capacidade criativa humana. Os mais criativos ou
esforçados precisam ser recompensados pela sua capacidade ou
engenhosidade, além disso, haverá mais dinamismo e produtividade se
souberem que poderão usufruir para si e suas famílias pelo menos alguma
parte daquilo que batalharam duramente em suas vidas. E, claro, ninguém
que quisesse trabalhar poderia ficar sem emprego, que seria um direito
fundamental de cidadania.
Mozart - Vesperae Solennes de confessore - K339 - 32min.
TEILHARD DE CHARDIN. O HOMEM DOS DOIS REINOS~ Paulo Meneses “O homem dos dois reinos” é o título de um belo filme sobre S. Tomás More: ilustre no reino da terra, como estadista, e no reino dos céus como santo e mártir da fé. Depois dele, ninguém mereceu mais esse título do que Teilhard de Chardin, que se intitulava a si mesmo “filho da terra e filho de céu”. O reino deste mundo no caso, não era o domínio político, como S. Tomás More, mas o universo das ciências. No mundo político houve muitos santos; até reis foram canonizados. Mas no mundo da ciência moderna, nascido fora da Igreja na modernidade, e por ela perseguida literalmente “a ferro e a fogo”, quem pensaria ser terreno propício a um santo, a um místico, que com igual ardor se dedicasse às ciências modernas e à vida em Cristo? O reino político, ao contrário, parecia um mundo a conquistar: a Igreja abraçou com sofreguidão o poder oferecido por Constantino, e Pio Nono ainda no século 19, estigmatizou os sacrílegos que propuseram que a Igreja abrisse mão da soberania sobre grande parte da Itália e se dedicasse ao Evangelho. Através de Padroados, Concordatas e outras astúcias se mancomunou com o poder dos reis, e dos autocratas, lançando raios sobre as heresias que propugnassem a separação da Igreja e do Estado. As audácias de Teilhar de Chardin Foi assim um “trabalho de Hércules” e uma temeridade heroica, dedicar-se à ciência moderna e à sua construção, justamente num ponto sensível como o evolucionismo e a origem do homem: quando a Igreja já tinha desistido de combater o heliocentrismo de Galileu, e voltava seus fogos para novas perigosas heresias das ciências como o evolucionismo, e logo depois a psicanálise, e o que mais surgisse de novo. Pio Nono condenara no seu truculento Syllabus quem dissesse que a Igreja devia reconciliar-se com o mundo moderno, e Teilhard teve a má sorte de surgir no rescaldo da crise modernista, quando Pio Décimo promovera violento expurgo da liberdade de pensamento na Igreja, e fez pairar uma atmosfera de terror inquisitorial sufocante. Felizmente, os tempos da inquisição “hard core” tinham passado, Teilhard não corria o risco das fogueiras “dos bons velhos tempos”; as fogueiras agora eram mais “softs” e mesmo metafóricas; e no entanto muito poderosas para ameaçar o trabalho dos pensadores e do progresso. 2 Qual é o segredo de Teilhard, que o fez saltar tantas fogueiras, sem um assomo de medo? Uma enorme magnanimidade, a “macropsia” tão admirada por Aristóteles e S. Tomás. A uma grande alma como Teilhard, nada intimida nem faz desesperar, porque tem no seu íntimo a certeza da verdade, e vê na guerra que lhe movem, mal entendidos e preconceitos ainda não superados. Ainda não: essa expressão diz tudo e é a voz mesma da esperança: é a certeza de que esses obstáculos do momento, o próprio tempo vai jogálos no lixo da história. Não se perde por esperar. Que culpa tinha Teilhard de ter chegado cedo demais, de estar à frente de seu tempo? Mas, por outro lado, quem poderia prever que sete anos depois de sua morte, o Concílio Vaticano II ia dar à sua Igreja essa abertura de espírito de que Teilhard fora precursor ? Que iria reconciliar a Igreja com o mundo moderno? Que João 23 ia adotar sua terminologia e seus conceitos sobre a socialização, e que um de seus grandes amigos, de Lubac, que escreveu o melhor livro sobre sua vida e sua obra, ia ter um papel de grande relevo nesse Concílio? Quem poderia prever que antes do fim do século, o papa João Paulo II ia declarar que o evolucionismo já não era hipótese nem teoria, mas uma aquisição definitiva da ciência? Por isso Teilhard não se abalava com as tempestades, mas como não buscava sua glória e sim a verdade, dobravase como o caniço, na passagem dos vendavais: fazia o que lhe mandavam, ia para onde o destinavam e lá continuava seu trabalho de cientista. Que lhe importava ser proibido de ensinar no Instituto Católico de Paris e mandado para China se ali ia pesquisar o sinantropo e firmar definitivamente seu nome na ciência? Que lhe importava que lhe proibissem de assumir um posto no Collège de France e até mesmo de pisar em Paris? Nova York é um bom endereço, e coordenar pesquisas arqueológicas na ONU, um belo desafio intelectual. E foi ali que morreu, na Páscoa de 1955, esse sábio, esse santo, que as perseguições transformaram em herói. É verdade que a vida de Teilhard estava em oposição frontal com o Syllabus, pois não só defendia, mas tornava uma realidade, a “reconciliação da Igreja com o mundo moderno”. Ainda assim não se explica claramente donde vinha tanta perseguição a Teilhard. Um escritor tão fecundo e original não pôde publicar um só livro em vida. E, contudo sua fidelidade a Cristo e à Igreja, e a lealdade para com sua Ordem, nunca vacilaram. Uma hipótese plausível é que o Geral dos jesuítas o admirava e procurava defendêlo das investidas dos “dicastérios” romanos e dos denunciadores que tentavam obter sua condenação. Eram tempos de Pio 12. Dandolhe menos visibilidade, escondendoo por tantos anos no subcontinente chinês, a milhares de léguas de Roma e de Paris (quando não havia ainda TV mundial nem Internet) pensava preserválo e realmente conseguiu. Talvez as longas conversas que foi ter em Roma com seu superior deram a esse o pressentimento de que o tempo trabalhava em favor de Teilhard e de seu pensamento. Se foi assim, o Geral dos jesuítas acertou plenamente... Teilhard como cientista Teilhard era um paleontólogo dos mais destacados de seu tempo. Estava começando um doutorado em sua especialidade, quando estourou a primeira guerra mundial e foi convocado para defender sua pátria. Quatro anos de guerra, em que muito refletiu e escreveu. Na volta, acabou de redigir e apresentou sua tese de doutorado. Suas pesquisas de paleontologia começaram pela Europa; no currículo elaborado por ocasião do convite a integrar o “Collège de France ”, enumera um elenco impressionante de pesquisas realizadas de 1901 a 1945. Depois de um breve período de ensino no Instituto Católico de Paris, donde foi afastado em nome da segurança doutrinária, Teilhard seguiu para Pequim, numa missão oficial do Museu de Paris. Na China, teve um papel importante na descoberta e no estudo do “sinantropo”. Também viajou por todo o continente, indo até ao Turquestão, explorou mesmo a Índia e a Birmânia, visitou a Somália, a Etiópia e a ilha de Java. Sua produção científica é imensa: cerca de 400 trabalhos, repartidos em 20 revistas científicas e publicados, depois de sua morte, em dez volumes (Ed. Walter, Friburgo da Brisgóvia). Nos últimos anos de vida, uma fundação antropológica americana o chamou a Nova York para coordenar a organização planetária de pesquisas concernentes à origem do homem. Com a morte, sua estrela não se apagou: deixou no campo científico marcas definitivas. Na China sua memória continua viva, como a do Padre Mateo Ricci. Em 2003, foi organizado um Colóquio em Pequim. O Museu de História natural fundado pelo P.Licent jesuíta, com quem Teilhard foi trabalhar em 1923, está agora transferido para um prédio moderno de vidro e aço. Nesse Colóquio, os sábios chineses elogiaram o trabalho científico de Teilhard, por ter estabelecido uma ponte entre a cultura oriental e ocidental. Ressaltaram também a valorização que dava aos chineses, pois entre eles escolhia seus colaboradores e os formava, ao contrário de outros pesquisadores, demasiado ligados a seus países de origem e que preferiam trabalhar com seus conterrâneos. O mesmo sábio chinês diz que na China só se conhecia Teilhard como paleontólogo, e era como tal que ele se apresentava e trabalhava na China. Ignorava-se seu pensamento filosófico, que aliás estava todo por publicar (também na Europa). Para os chineses de hoje, Teilhard é o novo Mateo Ricci dos tempos modernos. Teilhard não era paleontólogo de gabinete: era pesquisador de trabalho de campo, promovendo contínuas escavações com seus discípulos chineses. As descobertas lhe impunham uma constatação inelutável: A biosfera se organiza em uma complexidade crescente. E constata três evidências fundamentais a propósito dessa complexidade: “1) Um maior número de elementos diferentes; 2) uma organização mais complexa desses elementos 3) e uma unidade fundamental mais estreita que é a marca de um progresso mais avançado”. Mas enquanto prossegue seus trabalhos de cientista, Teilhard aprofunda o sentido do mundo e o de sua vida. Escreve em uma carta: “Quanto mais os anos passam, mais começo a crer que minha função terá sido simplesmente, a de uma imagem reduzida de João Batista, aquele que anunciava e chamava o que devia vir. Ou ainda; suspeito que pedem de mim simplesmente para ajudar uma alma nova a nascer no que já existe. Se me volto para o exame objetivo dos fatos e de minha capacidade, termino sempre por concluir que o me pedem é que, seguindo minha linha individual, seja “companheiro de Jesus” mais a fundo. Se o grande Cristo é bem o que nós cremos, e se ele deseja verdadeiramente servirse de mim para pregálo, é nessa fidelidade que virá buscarme.” O “sistema” de Teilhard O grande espírito de Teilhard nunca se contentou com o estudo de detalhes e minúcias, de particularidades e singularidades, que é a obsessão dos “pósmodernos”. Era um verdadeiro filósofo, e portanto, como queria Platão, era sinóptico: tinha seu olhar fixo no todo, e qualquer elemento particular era visto na perspectiva da totalidade. Como verdadeiro filósofo, era desafiado pelo problema “do uno e do múltiplo”. E sua concepção era aí original: o “nada” de que tudo foi tirado, significava a “multiplicidade pura”, a indiferenciação absoluta. Deus tirou o mundo do nada dando unidade a seres particulares, na sua multiforme diferença. Sendo Deus a unidade pura, deu aos seres participar de sua unidade, em si mesmos, e tenderem sempre para unidades mais amplas, pois todo o movimento de subida, que Deus imprimiu nos seres desde o começo, é um movimento de “convergência”, como declara no seu aforismo que tudo sintetiza: “Tudo o que sobe, converge”. 5 Os átomos, que já são unidades de uma energia complexa, unemse, permanecendo eles mesmos, na unidade de moléculas cada vez maiores. As moléculas subsistem permanecendo elas mesmas, mas de alguma sorte transfiguradas na célula viva. As células vivas se unem, de novo, e se especializam – permanecendo elas mesmas em organismos cada vez mais diversificados. Processo de complexificação em que a união diferencia! Mas o fenômeno não estaciona com a aparição das pessoas livr es, no limiar da reflexão. A curva prossegue: As mônadas conscientes, as pessoas livres, se unem em um superorganismo, em um “ultrahumano” 1 , mas permanecendo elas mesmas de modo que a união deve fazerse no nível da nova dimensão aparecida com o limiar da reflexão. Então a unidade que se procura e já começa a criarse em torno de nós, não é um arranjo casual, e sim, feita “em uma escala nova e com novos recursos”. Tratase mesmo de um superorganismo. É preciso que as pessoas encontrem sua unidade sendo elas mesmas ainda mais pessoas, isso é, acentuando sua autonomia e transfigurando de maneira insuspeitada, sua personalidade, em uma “superpessoa”, à escala planetária. Cada um desses níveis de organização (átomo, molécula, ser vivo, homem) existe em dependência estreita com os precedentes, porém traz uma novidade radical: são graus crescentes de complexidade, mas ao mesmo tempo um “centrarse” do ser em si mesmo – graus de unificação e por isso, de autonomia relativa. Essa série orientada não é uma construção de nossa imaginação, porque suas etapas aparecem no tempo seguinte dessa mesma ordem de complexidade e de centramento, e essas duas características se traduzem em disposições materiais muitas vezes mensuráveis, em todo caso, identificáveis. Essa progressão não termina no homem, mas prossegue além dele nos modos de conhecimento e ação próprios do homem. É o movimento que Teilhard chama socialização. Socialização é um “retorno da humanidade refletida sobre si mesma” é um fato positivo que se situa no eixo evolutivo, pois o homem individual só é perfeitamente homem, só chega aos limites de si mesmo em uma solidariedade e pela solidariedade a todo humano, passado, presente e futuro. Devesse ir conscientemente em direção de uma socialização que nos torna mais humanos, e é precisamente nessa socialização que a humanidade reencontrará sua alegria de viver. A curva da “complexidadeconsciência” manifesta a vinda de uma nova fase evolutiva: a socialização se define como “a forma última da evolução biológica em meio refletido”. 1 Teilhard explica o termo: “ultrahumano” exprime simplesmente a idéia de um humano prolongandose além de si mesmo, sob uma forma melhor organizada, mais “adulta” que aquela que conhecemos” (Grupo zoológico humano, p. 147) 6 Sinais dessa socialização estão em toda a parte: no trabalho humano em que Marx em seu tempo detectou uma socialização crescente, e hoje tende a tornarse um mundo unificado, uma rede de relações e de responsabilidades. O mundo do trabalho tende a ser um mundo de comunicações, onde se criam condições para maior acesso à liberdade, a uma vida mais pessoal, e ao progresso material e cultural. As comunicações eletrônicas – telégrafo, telefone, rádio, televisão, e agora a Internet que Teilhard não conheceu, mas em que viria uma plena confirmação de seus sonhos – une os cérebros de todos os homens fazendoos pensar e atuar em conjunto, como se fosse um supercérebro. As informações em tempo real, como vimos há pouco na morte do papa – fazem que milhões e milhões de pessoas participem das mesmas emoções, e interajam através dos continentes formando um só público, um enorme ser coletivo que tendencialmente abarca a humanidade inteira. Claro que o mal não está excluído nem exorcizado desse processo. Mas para Teilhard o mal não tem futuro, a vitória será do bem, e a humanidade socializada descobrirá, cada vez mais, que seu destino é a “amor ização”, isso é uma expansão de amor que una definitivamente nossa espécie humana, formando uma unidade de ordem superior de espírito e de liberdade. Assim aquele impulso “para o alto e para o uno” que fez surgir em patamares sucessivos, os átomos e as moléculas, que confluíram nas células do ser vivo criando a incrível diversidade e união da biosfer a em nosso planeta; e depois, a vida que como suprema realização viu surgir no homem a consciência e a liberdade, formando a noosfer a, está agora dando um ultimo e decisivo passo unindo esses seres todos em uma unidade que tudo recapitula e sintetiza, pois isso é a reflexão, o Espírito, a comunhão de consciências. O “metasistema” de Teilhard Se Teilhard tivesse parado aqui, já teria avançado muito, e visto que a evolução é um fenômeno total, em que a biogênese se continua na noogênese, e a diversidade cada vez maior converge em uma unidade de ordem superior, agora no nível da “socialização”, ou “amorização”. Porém para Teilhard tudo isso está imerso em uma transcendência e dela recebe seu sentido. No começo de tudo, está Deus como o ponto Alfa, Deus origem de todo ser, que fez nosso planeta literalmente explodir em formas cada vez mais perfeitas de vida. E no termo de tudo, no ápice de seu movimento e de seu sentido, está Deus como o ponto Ômega; ou Deus para o qual tudo tende e que, repetindo Aristóteles, “move como objeto de amor”, ou citando Dante, “O Amor que move o sol e as estrelas”. Na linguagem de S. João, Jesus “sabendo que vinha de Deus e voltava para Deus”, está descrevendo o itinerário de tudo o que é criado: a origem e o destino de tudo. 7 Então, para além dos patamares da biogênese e da noogênese, devese acrescentar a instância definitiva, a cr istogênese. Aqui Teilhard foi buscar em São Paulo sua idéia do Cristo cósmico, Cristo sentido da criação, seu ponto de convergência e de união, que a tudo vivifica, que está trabalhando no íntimo de todo ser e de toda a evolução, orientandoa para o Pai: o qual é justamente o ponto Ômega, ao qual vai submeterse e entregar o seu Reino. A cristogênese é também um movimento de subida e de convergência, prenunciado pelas fases anteriores, mas que representa sua realidade definitiva: para Ele existe o cosmo, e só “por Cristo, com Cristo e em Cristo” alcança sua plena verdade e seu destino. Não vamos desenvolver mais este ponto, pois estamos em uma semana de teologia, e certamente os teólogos de profissão já discorreram sobre a teologia de Teilhard. Teilhard de Chardin, o místico Teilhard de Chardin não era só um homem de fé, que acreditava em coisas que estão além de sua experiência humana, confiado na palavra de Deus. A mística é uma experiência de Deus; diferente da oração em que a alma se eleva a Deus, objeto da fé; é uma experiência de Deus, outorgada pelo próprio Deus: Deus invadindo a consciência humana, absorvendo a alma em seu amor, por isso a experiência mística está geralmente associada ao êxtase. Nessa contemplação infundida do alto, Deus se comunica, e essa experiência é indizível: não tem tradução em linguagem humana. Uma analogia seria a contemplação ou intuição estética: uma obra prima, uma música, por exemplo, não se traduz em palavras: invade nossa alma e a eleva a um estado de deslumbramento que não cabe em nenhum discurso. 8 Por exemplo, S. João da Cruz, que era bom poeta além de místico, fez poemas sobre sua experiência contemplativa: mas suas poesias não transmitiam o segredo da comunicação de Deus à sua consciência; eram, por assim dizer, um “efeito colateral”, sua alma que estivera imersa em contemplação, vibrava em acordes de poesia como um reflexo ou um eco de sua experiência mística; mas qualitativamente diversa, pois uma vinha do alto, do Espírito de Deus, e a outra da consciência (e do inconsciente) do homem. Tem existido místicos em outras religiões e culturas: sempre se soube que os neoplatônicos, Proclo e Plotino foram místicos, que tinham êxtases divinos (patiens divina) e agora se fala de que Sócrates e Platão também o eram. Sobre Sócrates nesse ponto, há o belo livro de JeanJoël Duhot, que traduzi para a Loyola: “Sócrates ou o Despertar da Consciência” Sabese que o filósofo ficava durante horas em êxtases, que lhe vinham quando menos esperava. Sobre Platão, temos o testemunho de uma grande mística e filósofa, Simone Weil, que via nele não só um místico, mas uma das fontes da mística cristã (ver Síntese, n° 101, p. 357). Isso era uma das causas do ódio que lhe movia Heidegger, na esteira de Nietzsche: esse lançava em Platão o supremo insulto de ser um “semita” isso é um “judeu”, um horror para esse precursor do nazismo. Quanto a Heidegger, que era nazista mesmo, e mudou toda a sua interpretação de Platão quando descobriu nele laivos de cristianismo, que a partir dos anos 30 passou a odiar (ibidem). Houve também grandes místicos entre os muçulmanos, pois a religião de Maomé nada tem a ver com Al Qaeda e terrorismo chiíta ou sunita, como espalharam os americanos depois da catástrofe das Torres gêmeas. Como ignorar a imensa contribuição que os árabes deram à cultura européia? Mas segundo Bérgson, em um dos mais extraordinários livros do século 20, “Les Deux Sources de la Morale et de la Religion”(minha edição é a 33ª, de 1941) diz que “O misticismo completo é o dos grandes místicos cristãos. (...) Uma imensa corrente de vida se apoderou deles; e dessa vitalidade acrescida desprendeu-se uma energia, uma audácia, um poder de concepção e de realização extraordinárias. Que se pense no que realizaram no domínio da ação, S. Paulo, S. Teresa, S. Francisco, S. Joana d’Arc” (p. 240). Bérgson conheceu Teilhard, com quem muitas vezes dialogou. Essa descrição do místico cristão coincide tão bem com Teilhard, que se pode pensar se não era nele que Bérgson se inspirava. O texto místico mais importante de Teilhard é “A Missa sobr e o mundo” que Teilhard fez quando estava no deserto de Ordos, (China) numa expedição científica e não tinha condições de celebrar a missa na festa da Transfiguração que ele particularmente amava. Para ele, a presença de Cristo na Eucaristia transbordava da hóstia sobre o mundo. “Para além da hóstia transubstanciada, a operação sacerdotal se estende ao cosmo inteiro”. “A transubstanciação se expande em uma divinização real, embora atenuada, de todo o universo. Do elemento cósmico onde está inserido, o Verbo age para subjugar e assimilar a si todo o universo”. “A Eucaristia opera, além da transubstanciação do pão, o crescimento do Corpo místico, e a Consagração de todo o cosmo”. O texto é de grande vibração mística e de muita beleza literária. Vejamos seu começo: 9 “Senhor, já que uma vez ainda, não mais nas florestas da França, mas nas estepes da Ásia, não tenho pão, nem vinho, nem altar, eu me elevarei acima dos símbolos até à pura majestade do Real, e vos oferecerei, eu, vosso sacerdote, sobre o altar da terra inteira, o trabalho e o sofrimento do mundo”. “O sol acaba de iluminar, ao longe, a franja extrema do primeiro oriente. Mais uma vez, sob a toalha móvel de seus fogos, a superfície viva da Terra desperta, freme, e recomeça seu espantoso trabalho. Colocarei sobre minha patena, meu Deus, a messe esperada desse novo esforço. Derramarei no meu cálice a seiva de todos os frutos que hoje serão esmagados. “Meu cálice e minha patena, são as profundezas de uma alma largamente aberta a todas as forças que, em um instante, vão elevar- se de todos os pontos do Globo e convergir para o Espírito”. “Outrora, carregava-se para vosso Templo as primícias das colheitas e a flor dos rebanhos. A oferenda que esperais agora, aquela de que tendes misteriosamente necessidade cada dia, para aplacar vossa fome, para acalmar vossa sede, não é nada menos do que o crescimento do mundo impelido pelo devir universal”. “Recebei. Senhor, essa hóstia total que a criação, movida por vossa atração, vos apresenta na nova aurora”. [ O texto continua, sempre comovente, mas é muito longo para ser lido na totalidade.] Vem em seguida a passagem do fogo, certamente uma “visão” de Teilhard, seja como for entendida. Entendo-a como aquelas visões de Ezequiel, ou como as epifanias do Apocalipse. Sua visão era a do fogo que descia sobre a terra e a penetrava toda, fazendo-a mcapaz de produzir a vida por todos os seus poros. O livro do Gênesis descreve que o Espírito (o vento de Javé) pairava sobre as águas para que delas brotasse a vida. Aqui, no registro dos dois outros elementos, (fogo e Terra) é a mesma visão: o fogo de Deus penetra na Terra para que ele se torne a Mãe de todos os viventes. “Irmão Sol, Irmã Lua”, dizia Francisco. Teilhard diz a “Mãe Terra” que ama como se fosse seu filho. 10 Para ele, estava esse mundo material totalmente impregnado de Deus, e na verdade, trabalhado em todos seus elementos pela presença de Cristo, como se fosse um prolongamento de seu próprio corpo, ou como se tendo assumido um corpo humano, por irradiação tivesse atingido todo o mundo material, que se tornou seu grande corpo cósmico. Pois Cristo tinha a missão de fazer convergir tudo para o Pai, e para isso se inseria em tudo, dando-lhe esse impulso a Deus a quem iria tudo entregar como também a si mesmo, no final dos tempos. A mística de Teilhard era, como toda a autêntica mística cristã, cristocêntrica. Só que, à diferença dos outros místicos, sentia a Cristo no palpitar da vida, na deriva e borbulhar da evolução. “Calai-vos florinhas, pois já si que é de Deus que me falais” dizia S. Inácio. Teilhard teria uma linguagem diferente: “crescei e subi criaturas todas, abrivos em diversidade e convergi para a unidade, pois em Cristo que está no mais íntimo de tudo, e em que tudo encontra sua consistência, sinto que confluis para Deus”. Para terminar vejamos mais alguns textos da “Missa sobre o mundo” (p. 53ss). “Cristo glorioso, influência secretamente difusa no seio da Matéria e Centro deslumbrante em que se ligam todas as fibras inúmeras do Múltiplo; Potência implacável como o Mundo e quente como a Vida; Vós que tendes a fronte de neve, os olhos de fogo, os pés mais irradiantes que o ouro em fusão; Vos cujas mãos aprisionam as estrelas, Vós que sois o primeiro e o último, o vivo, o morto e o ressuscitado:Vós que reunis em vossa unidade todos os encantos, todos os gostos, todas as forças, todos os estados: é por Vós que meu ser chamava com um desejo mais vasto do que o universo: Vós sois verdadeiramente meu Senhor e meu Deus!” “Encerrai-me em Vós, Senhor!” “Toda minha alegria e meu êxito, toda a minha razão de ser e meu gosto de viver, meu Deus, estão suspensos a essa visão fundamental de vossa conjunção com o Universo. Que outros anunciem os esplendores de vosso puro Espírito! Para mim, dominado por uma vocação que penetra até ás últimas fibras de minha natureza, eu não quero, eu não posso dizer outra coisa que os inúmeros prolongamentos de vosso Ser encarnado através da matéria: jamais poderia pregar senão o mistério de vossa Carne, ó Alma que transpareceis em tudo o que nos rodeia!” “Ao vosso Corpo em toda sua extensão, isto é, ao Mundo tornado por vosso poder e por minha fé o crisol magnífico e vivo em que tudo aparece para renascer, eu me entrego para dele viver e dele morrer, ó Jesus ”. 12 BIBLIOGRAFIA OBRAS DE TEILHARD (Edições du Seuil, Paris) Le Phénomène Humain Le Milieu Divin Hymne de l’Univers Le Christ Évoluteur (Socialisation et Religion) LIVROS SOBRE TEILHARD Émile RIDEAU – O Pensamento de Teilhard de Chardin (tradução portuguesa, Duas Cidades, 1965). Cardeal Henri de LUBAC – La pensée religieuse du père Teilhard de Chardin, Cerf, Paris, 2002. Jacques ARNOULD (O.P.) Pierre Teilhard de Chardin (biografia) Perrin (Paris), 2005. OUTRAS REFERÊNCIAS JeanJoël DUHOT – Sócrates e o despertar da consciência Trad. Paulo Meneses, Ed. Loyola, 2004. Édouard BONÉ Deus, hipótese inútil? Posfácio sobre Teilhard, “Filho da terra, Filho do céu” Trad. Paulo Meneses – Ed. Loyola, 2003. ARTIGOS de REVISTAS SÍNTESE N° 74, p. 345 : P. H.Lima Vaz: Teilhard de Chardin e a Questão de Deus N° 101, p. 333: Maria da Penha Vilela: Duas leituras de Platão, Simone Weil e Heidegger ÉTUDES Mai de 2004, p. 665: Henri Madelin, Sur les pas de Teilhard
www.unicap.br/neal/artigos/Texto5PePaulo.pdf
Licença padrão do YouTube
Sejam felizes todos os seres.
Vivam em paz todos os seres.