sexta-feira, 10 de agosto de 2012

MOZART A GRANDE MISSA em Do Menor - KV 427. Kyrie (Bernstein) - 7:58 - A Aproximação de Deus -Confissões- Agostinho de Hipona



Mozart


Great Mass in c minor kv. 427

1. Kyrie

Arleen Auger
Chor und Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks
Leonard Bernstein

 CAPÍTULO XVI
A aproximação de Deus

Louvor e glória a ti, ó fonte das misericórdias! Eu me tornava cada vez mais miserável, e tu
te aproximavas cada vez mais de mim. já estava junto de mim tua destra, para me arrancar do
lodo dos meus vícios, e em purificar, e eu não o sabia. Mas nada havia que me fizesse sair do
profundo abismo dos prazeres carnais, a não ser o medo da morte e de teu juízo futuro, que
jamais saiu do meu peito, através das várias doutrinas que segui.

Discutia com meus amigos Alípio e Nebrídio, sobre o bem e o mal finais; facilmente meu
juízo teria dado a palma a Epicuro, se eu não acreditasse na imortalidade da alma e do
julgamento de nossos atos, coisas em que Epicuro nunca acreditou. E eu perguntava: “Se
fossemos imortais, e vivêssemos em perpétuo gozo sensorial, sem temor algum de perde-lo, não
seriamos felizes? Que mais poderíamos desejar?” Ignorava eu que isto era fruto duma grande
miséria. Não podia, tão imerso no vício e cego como estava, imaginar a luz da virtude e uma
beleza invisível aos olhos da carne, e somente visível das profundezas da alma. Na minha
miséria, não indagava de que fonte provinha esse grande gosto em conversar com os amigos, por
maior que fosse a abundância dos prazeres carnais, segundo a idéia que eu tinha então? Eu
amava a meus amigos desinteressadamente, e também sentia que eles me amavam com o
mesmo desinteresse.

Ó caminhos tortuosos! Ai da alma temerária que, afastando-se de ti, esperava achar algo
melhor! Dá voltas e mais voltas, para todos os lados, mas tudo lhe é duro, porque só tu és seu
descanso. Mas eis que estás presente, e nos livras de nossos miseráveis erros, e nos pões em
teu caminho, e nos consolas dizendo: “Correi, que eu vos levarei e conduzirei ao termo, e aí serei
vosso sustento!

LIVRO SÉTIMO
CAPÍTULO I
A idéia de Deus
Já havia morrido minha adolescência má e nefanda; entrava na juventude, e quanto mais
crescia em idade, mais vergonhosa se tornava minha vaidade, a ponto de não poder imaginar
uma substância além da que se pode perceber com os olhos.

Desde que comecei receber as lições da sabedoria, não mais te imaginava, meu Deus, sob
a forma de um corpo humano – sempre fugi dessa idéia, e me alegrava encontrar essa doutrina
na fé de nossa mãe espiritual, a Igreja Católica; - mas não me ocorria outro modo de te imaginar.
E sendo eu homem – e que homem – esforçava-me para imaginar a ti, o sumo, o único e
verdadeiro Deus. Com toda minha alma eu te julgava incorruptível, inviolável e imutável. Mesmo
não sabendo de onde nem como me vinha esta certeza, eu via com clareza e tinha como certo
que o incorruptível é melhor do que o corruptível. Sem hesitar, colocava o que não pode ser
vencido acima do que o pode ser, e o que não sofre mudança parecia-me melhor do que é
suscetível a mudanças.

Meu coração clamava violentamente contra todos os meus fantasmas. Esforçava-me por
afugentar, com um só golpe, o redemoinho de imagens imundas que voluteavam ao meu redor.
Mas, apenas disperso, em um piscar de olhos, tornava a se formar os atropelos sobre minha vista,
obscurecendo-a. Apesar de não te atribuir uma figura humana, contudo, necessitava te conceber
como algo corporal, situado no espaço, quer imanente ao mundo, quer difundido por fora do
mundo, através do infinito; tal era o ser incorruptível, inviolável e imutável que eu colocava acima
do que é corruptível, sujeito à deterioração e ás mudanças. O que não ocupava espaço me
parecia um nada absoluto, perfeito, e não um simples vazio, como quando se tira um corpo de um
lugar, permanecendo o lugar vazio de todo o corpo, terrestre, úmido, aéreo ou celeste, mas,
enfim, um lugar vazio, como que um nada espaçoso.

Assim, pois, com o coração pesado, sem consciência clara de mim mesmo, considerava
como um perfeito nada tudo o que não tivesse extensão por determinado espaço, ou não se
difundisse ou pudesse assumir um desses estados. As formas percorridas por meus olhos eram
os moldes das imagens pelas quais andava meu espírito; não via que a mesma faculdade com
que formava essas imagens não era da mesma natureza que elas, não obstante não pudesse
formá-las se ela não fosse por sua vez algo grande.

E também a ti, vida de minha vida, imaginava-te como um Ser imenso, penetrando por
todas as partes, através dos espaços infinitos, toda a massa do mundo, alastrando-se sem limites
na imensidão, de sorte que a terra, o céu e todas as coisas te continham, e tudo isso tinha em ti
seu limite, sem que te limitasses em parte alguma. E assim como a massa do ar – deste ar que
está sobre a terra – não impede a passagem da luz do sol, não o impede de a atravessar, de a
penetrar sem romper ou cortar, antes enchendo-a totalmente, assim eu pensava que não somente

a substância do céu, do ar e do mar, mas também a da terra se deixava atravessar e penetrar por
ti em todas as suas partes, grandes e pequenas, que receberiam tua presença, que, com secreta
inspiração, governa interior e exteriormente tudo o que criaste.
Assim conjeturava eu, por não poder imaginar-te de outra forma; mas minha conjectura era
falsa. Porque, se assim fosse, uma porção maior da terra conteria parte maior de ti; e uma porção
menor da terra conteria parte menor. E de tal modo estariam as coisas impregnadas de ti, que o
corpo de um elefante conteria tanto mais de teu ser que o corpo do passarinho, pois aquele é
maior do que este, e ocupa mais espaço. Assim, fragmentado entre as partes do universo,
estarias presente nas grandes partes do universo por grandes partes de ti, e nas pequenas por
pequenas, o que não acontece. Mas ainda não tinhas iluminado minhas trevas.


 Li-Sol-30
 Fontes:
 http://sumateologica.files.wordpress.com/2009/07/santo_agostinho_-_confissoes.pdf
Enviado por em 15/07/2007
 

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